O Aborto

 

Desde a Antigüidade até hoje, o aborto foi empregado como método de controle da natalidade. Ele consegue o controle da natalidade, não pelo impedimento da concepção, mas pela morte da vida recém-concebida. Sob o ponto de vista de sua moralidade, as atitudes variam muito nas culturas antigas. Platão e Aristóteles aprovam-no como meio de impedir o excesso populacional nas pequenas cidades do estado da Grécia. Aristóteles, contudo, era contra o aborto, quando a mãe se encontrava em estado avançado de gravidez.

Os sumérios, os assírios, os códigos de Hamurabi e dos persas, que vão desde 2.000 a 600 A.C., proibiam o aborto e impunham punições severas àqueles que causavam a morte de uma criança nascitura. O juramento hipocrático, atribuído a Hipócrates (400?-377? A.C.), inclui o compromisso de não tratar uma mulher decidida a provocar um aborto. Uma vez que o infanticídio era moral e legalmente aceito, na antiga Roma, o aborto era considerado ainda menos questionável do que aquele. Era, contudo, punível, quando feito sem o consentimento do pai. A atitude permissiva de Roma mudou, quando a população começou a declinar, no segundo século depois de Cristo. A Roma imperial proclamou leis antiabortivas muito rígidas, para estancar a decadência moral e fortalecer a nação. O judaísmo e o cristianismo sempre foram contra o aborto, e assim foi a legislação civil do Ocidente, na era cristã, até os tempos presentes.

Após a segunda guerra mundial, apesar das leis restritivas e das severas punições impostas aos violadores, um número bastante grande de abortos ilegais foi realizado nos Estados Unidos e em muitas outras partes do mundo. Este fato foi uma das razões, aduzidas pelos advogados do aborto, para motivar os legisladores e as cortes a excluírem a sua proibição. Leis permissivas foram promulgadas por, aproximadamente, dois terços das nações do mundo, na última década, o que permite, agora, a mulher grávida, praticar o aborto a pedido. Nos Estados Unidos, as decisões da Corte Suprema de Roe V. Wade (Texas) e de Doe V. Bolton (Geórgia), de 22 de janeiro de 1973, legalizaram o aborto. Para o primeiro trimestre, a decisão de aborto é “deixada a juízo do médico atendente da mulher grávida”; no segundo trimestre, o Estado... “pode, se quiser, regulamentar o procedimento quanto ao aborto, de acordo com a saúde da mulher”. Quanto ao último estágio de gravidez, o Estado... “pode, se quiser, regularizar e, até mesmo, proibir o aborto, salvo em caso de necessidade, com o intuito de salvar a vida e a saúde da mãe”. O termo saúde, no entanto, é interpretado tão amplamente pela Corte que ele inclui “todos os fatores físicos, emocionais, psicológicos, familiares e a idade da mulher, relevantes para o bem-estar da paciente”, segundo o julgamento de qualquer médico. Em seu relatório oficial sobre a Emenda Hatch, publicada em 1982, o Comitê Judiciário do Senado dos Estados Unidos conclui:

“O Comitê observa que atualmente não existem quaisquer barreiras legais significativas de nenhuma espécie, nos Estados Unidos, para as mulheres abortar por qualquer razão durante qualquer estágio de sua gravidez”.

Calcula-se que cerca de 1,5 milhões de abortos estão sendo realizados anualmente só nos Estados Unidos. De acordo com a recente estimativa do Comitê de Crise Populacional, são realizados cerca de 40 milhões de abortos em todo o mundo, isto é, cerca de uma gravidez em cada quatro termina em aborto. Outras estimativas, no entanto, são substancialmente maiores do que essa. Como método de controle de natalidade, o aborto ocupa o terceiro lugar, depois da esterilização voluntária (cerca de 100 milhões) e contraceptivos orais (cerca de 55 milhões). Cerca de dois terços da população mundial vive em países onde o aborto é legal com requerimento ou sob certas condições. Nos Estados Unidos, a taxa é estimada em 417 abortos por 1.000 nascimentos. As taxas da Europa são geralmente mais elevadas. Os tipos de aborto variam muito. “Nos Estados Unidos, por exemplo, 74% das mulheres que procuraram o aborto, em 1978, eram solteiras e 57% não queriam filhos. No México, pelo contrário, segundo o estudo de 1979, 95% das mulheres que buscavam o aborto eram casadas e mães de mais de três filhos”.

 

Legalidade e Moralidade do Aborto

A regulamentação da Suprema Corte legalizou o aborto, mas não pôde mudar a sua moralidade pela decisão da maioria. Somente uma moral positiva sustentaria que tudo quanto a Corte Suprema ou a autoridade pública aprova se torna, automaticamente, bom e permissível, do ponto de vista moral. Tal como a escravatura, a segregação e a discriminação contra certos grupos de pessoas não podem tornar-se, moralmente, corretas pela decisão de uma corte, assim também o aborto não pode ser considerado bom, se, por sua natureza é moralmente mau. Nossa tarefa é, portanto examinar a natureza do aborto, a partir deste ponto de vista. Uma mulher, quando procura o aborto, nos Estados Unidos, não está sujeita à sentença de prisão, porém ela e o cirurgião, que a opera, deverão prestar contas às suas consciências, para saberem se realizam um ato moralmente mau ou não.

Esta questão despertou fortes emoções tanto dos que são a favor do aborto quanto dos que estão contra o mesmo. Se 1,5 milhões de abortos legais, realizados, anualmente, nos Estados Unidos, são assassinato deliberado destes seres humanos, o problema não pode ser considerado de pouca importância. Mas um debate, influenciado por fortes emoções, pode facilmente degenerar em palavrões. É necessário, então, esclarecer os problemas éticos envolvidos no aborto e oferecer um tipo racional de respostas que podem levar todas as pessoas de boa vontade a uma reflexão séria.

 

O Início da Vida Humana

Quando começa a vida humana? Este é o problema central da controvérsia sobre o aborto. A questão é, algumas vezes, formulada de outra maneira: - O feto é uma pessoa?

Vamos, em primeiro lugar, considerar o conceito de pessoa. É importante saber se o uso deste termo esclarece o problema central do início da vida humana ou, pelo contrário, torna-o mais ambíguo. Que é uma pessoa? Nós, geralmente, equiparamos uma pessoa a um ser humano, isto é, a um ser individual que tem capacidade de raciocínio consciente e de impor a sua autodeterminação. Alguns restringem o uso do termo pessoa àqueles indivíduos que já têm um claro desenvolvimento da capacidade de autoconsciência num grau menor ou maior. A Corte Suprema argumenta que “a palavra pessoa, como é usada na Emenda 14, não inclui os não nascidos”. Os diversos estágios do desenvolvimento, sugeridos como pontos de partida para definir o conceito de pessoa podem, porém, ser arbitrários e propostos de acordo com a intenção que alguém tem ao apresentar uma determinada definição. Os escravos, antigamente, não eram considerados como pessoas sob todos os pontos de vista; em algumas nações, mesmo nos dias de hoje, as mulheres não são, legalmente, consideradas pessoas com plenos direitos.

Há algum critério objetivo para afirmar que o feto, o escravo ou a mulher não são pessoas no pleno sentido da palavra? O feto, obviamente, não é uma pessoa completamente desenvolvida. Quando um ser humano se torna uma pessoa? No ventre, no fim do segundo trimestre de gravidez ou na hora do nascimento? Ou mesmo mais tarde, quando ingressa no primeiro grau de ensino e pode começar a ganhar a vida? Poder-se-iam arrolar várias condições arbitrárias e argumentar em favor da correção de cada uma delas, mas com pouca evidência objetiva.

Parece que o emprego do termo pessoa somente obscurece o problema principal, porque a sua definição pode ser arbitrariamente sujeita ao objetivo para o qual a definição foi formulada. Parece-me, então, aconselhável excluir este termo de nossa consideração e dirigir a análise para o problema central do inicio da vida humana.

Pode ser objetado que a resposta a esta questão também é arbitrária, pois o problema também depende da finalidade com que alguém usa esta definição específica da vida humana. Isto pode ser verdade. A arbitrariedade, no entanto, pode ser melhor eliminada, aqui, porque existem certos fatos objetivos que servem como ponto de partida de nossa análise.

 

Embriologia e Vida Humana

A genética e a embriologia modernas oferecem um relato bastante detalhado sobre o desenvolvimento da vida humana. Esta começa com a união do óvulo e do espermatozóide, e continua a crescer até o nascimento da criança. O desenvolvimento do ser concebido que continua ininterruptamente na criança recém-nascida, sugere que a vida humana está presente desde a concepção. Alguns, no entanto, sustentam que certos estágios podem ser apontados nesse crescimento, e que qualquer um deles poderia ser tomado como o início da vida humana. Um desses estágios sugeridos seria o da implantação do óvulo fertilizado no útero o que ocorre mais ou menos 6 a 7 dias depois da fertilização. Teólogos católicos, do passado, defendiam que o início da animação, isto é, a infusão da alma espiritual no embrião, ocorre quando a matéria está suficientemente organizada para ser suporte da alma ou da forma substancial do homem. Nenhum teólogo ou filósofo contemporâneo, de tradição aristotélica, está disposto a definir algum grau especifico do desenvolvimento ou algum instante, no tempo, quando a animação ou humanização ocorre, mas alguns não excluem a possibilidade de que isto não ocorra no momento da fertilização. A maioria dos filósofos contemporâneos, de tradição aristotélica, sustentam, no entanto, que a forma substancial do homem, isto é, a humanidade está presente desde a concepção, porque somente a presença de uma causa especificamente humana pode explicar os efeitos humanos do crescimento teleologicamente ordenado do conceptus para a criança completamente desenvolvida, que é, indubitavelmente, um ser humano.

Em seu último documento sobre o aborto, a Igreja Católica não tomou posição em relação ao momento em que a alma espiritual é infundida no conceptus. Esta questão foi deixada em aberto, como está claramente dito na nota 19, ao pé da página, da Declaração sobre o Aborto Internacional, feita pela Sagrada Congregação da Doutrina da Fé. A Declaração insiste, contudo, que, mesmo que a alma espiritual seja infundida depois do instante da fertilização, a vida humana está presente a partir do momento da concepção. Além do mais, mesmo que houvesse alguma dúvida quanto à humanidade do conceptus, não nos é permitido pôr em perigo a vida de um ser que, possivelmente, já é um ser humano com uma alma espiritual. Deve-se seguir, neste caso, o caminho mais seguro, porque não nos é permitido realizar um ato que possa matar uma pessoa. A Declaração insiste em que o problema do inicio da vida humana não é um problema científico, mas filosófico e ético.

 

Início das Ondas Cerebrais

Alguns sustentam que a vida humana inicia, quando o cérebro começa a funcionar e ondas cerebrais podem ser observadas. A razão, para esta posição, é a opinião amplamente difundida de que a morte é a cessação da atividade elétrica do cérebro. As ondas elétricas do cérebro podem ser medidas pelo eletroencefalograma (EEG). Um EEG que não registra nenhum sinal significativo mostra que o cérebro não está mais funcionando e a pessoa está morta. Seria lógico, argumentam eles, considerar o início da vida humana a partir do momento em que o cérebro começa a funcionar, uma vez que a atividade do cérebro é a base da vida humana racional. A dificuldade, com esta posição, é que um cérebro morto indica o fim da vida humana, como sabemos; o cérebro morto não tem capacidade de reviver por si. Mas o embrião em desenvolvimento tem a capacidade natural de fazer funcionar o cérebro. Os dois estágios da vida humana são, portanto, inteiramente diferentes, a partir do ponto de vista do cérebro funcionante. O embrião contém a capacidade natural de desenvolver todas as atividades humanas: percepção, raciocínio, vontade e outras atividades correlatas. A morte significa o fim do crescimento natural, a cessação dessas habilidades.

 

Movimento do Feto

Uma outra opinião sustenta que o início dos movimentos espontâneos do feto no seio da mãe são o início da vida humana. Este momento pode ser facilmente determinado, porque é percebido pela mãe. Aristóteles e algumas tradições legais permitem o aborto unicamente antes do início destes movimentos. A percepção de um ser vivo no ventre da mãe é, certamente, um momento importante para a mulher que está com uma criança, mas é difícil argumentar, convincentemente, que o feto não é humano até que seu movimento e seu crescimento possam ser sentidos. Qual é o particular efeito deste movimento da humanidade do feto? Como pode o movimento indicar a transformação de um feto não-humano em ser humano? Se isto é apenas um sinal de uma causa que produz esta transformação, o que é esta causa que, subitamente, aparece e traz para a existência um ser humano?

 

Viabilidade

Ainda outros sustentam que a viabilidade é a linha divisória que distingue o feto não-humano do humano. Esta opinião parece ser a base da sentença da Corte Suprema, em 1973, estabelecendo que os estados podem proibir matar o feto no estágio final do desenvolvimento. O raciocínio é que, nesse ponto, o feto poderia sobreviver fora do ventre e, assim, já teria uma vida humana independente. Parece que as dificuldades assinaladas anteriormente devem ser enfrentadas, também, pelos seguidores desta opinião. Como a viabilidade transforma, de tal modo, a natureza do feto, que o ser não-humano então possa ser humano? Não é a viabilidade, apenas um critério extrínseco usado por alguns membros da sociedade que, simplesmente, declaram que o feto seria considerado, nesse momento, um ser humano? De mais a mais, o tempo de viabilidade não pode ser determinado precisamente, e este fato criaria grandes problemas práticos para aqueles que defendem esta opinião.

 

Nascimento

Alguns, finalmente, consideram que a humanidade está presente após o nascimento, quando a criança se torna, biologicamente, independente da sua mãe. Mas a independência de um bebê recém-nascido é muito tênue. Não convence o argumento de que este tipo de independência transforma o feto viável de ser não-humano em ser humano.

 

Uma Questão Filosófica

Parece que a ciência pode oferecer dados valiosos acerca do desenvolvimento de um ser humano, desde a concepção até o nascimento e, mesmo, depois; mas toda informação científica não pode precisar o tempo em que o feto em desenvolvimento deve ser considerado humano. A questão é fundamentalmente filosófica e não científica. Não caímos, então, novamente no velho dilema, que se baseia na opinião arbitrária dos filósofos? Existem, certamente, muitas opiniões contraditórias na filosofia, e podemos duvidar se a opinião de um filósofo é melhor do que a de qualquer outro.

 

Causa e Efeito

É tarefa da filosofia esclarecer os conceitos e oferecer razões para a compreensão dos grandes problemas da vida humana para os quais os dados científicos não nos podem dar respostas. Um fator que, de certa forma, pode iluminar a questão da humanidade do feto é a conexão entre efeitos específicos e causas específicas. Da união do óvulo e do espermatozóide resulta um ser especifico, com uma energia específica que produz atividades, no embrião, de que, finalmente, resulta uma criança completamente desenvolvida, um ser humano. Das ações de um ser humano podemos concluir a sua natureza; a partir dos efeitos, podemos concluir para a presença de uma causa específica. Os efeitos e as operações de uma causa, neste caso, são humanos; logo, a causa também deve ser humana. Se não fosse, não poderia produzir efeitos (que são) humanos. Aristóteles designava, de forma substancial, a origem do crescimento e das operações especificas de um ser. Nós chamamos, hoje, esse misterioso centro dos seres, de natureza, aquela que nos explica por que agem de uma forma específica e produzem efeitos específicos, característicos de suas espécies. Percorrendo o caminho de volta, desde o nascimento de uma criança, não podemos encontrar nenhuma ruptura no contínuo desenvolvimento de um ser que acaba de nascer, ruptura essa que faria dele um ser individual diferente, antes do nascimento. Há uma identidade pessoal neste ser. É o mesmo ser desde o óvulo fecundado até o nascimento e até a idade adulta. É diferente de qualquer outro ser. Parece que a vida humana é um contínuo desenvolvimento e crescimento, desde a concepção até a morte.

Poderia ser objetado que o desenvolvimento e as atividades do embrião primitivo podem ser explicados pela natureza vegetativa ou animal. A natureza humana, como causa de atividades especificamente humanas, substitui, mais tarde, a natureza vegetativa ou animal, segundo essa teoria. Os seguidores do hilemorfismo aristotélico, entre os quais Santo Tomás, aceitam esta posição como razoável. Mas esta teoria tem de explicar, satisfatoriamente, o desenvolvimento ininterrupto e contínuo do embrião, desenvolvimento que não está dividido em três estágios detectáveis e separados. Um óvulo fecundado difere, geneticamente, desde o estágio inicial, de uma planta ou de um animal específicos. Sua natureza e especificidade não mudam durante o seu crescimento em direção a um ser específico que nós chamamos homem. Não devemos aceitar, desnecessariamente, a existência de múltiplas causas ou seres, quando uma causa ou um ser podem explicar, satisfatoriamente, um fenômeno.

 

Geminação e Recombinação

Os fatos ocasionais de geminação e de recombinação, algumas vezes, são trazidos como objeção contra os argumentos anteriores. A geminação é a divisão de um único óvulo fertilizado em dois embriões que se desenvolvem separadamente.  O resultado são gêmeos idênticos. Segundo alguns embriologistas, a formação de gêmeos idênticos pode ocorrer até o décimo-quarto dia após a fecundação. A recombinação é a junção de dois grupos de células que estão se desenvolvendo, independentemente, num só, de modo que, a resultante será apenas um feto em vez de gêmeos. A recombinação também pode ocorrer até, aproximadamente, o início da terceira semana, após a fecundação. Segundo alguns, os fatos da divisão e da recombinação provam que o óvulo fecundado não é uma pessoa humana, porque a incomunicabilidade individual é a nota essencial do ser pessoal. Um zigoto que se desdobra em duas pessoas ou dois zigotos que se podem combinar em um, não são irrevogavelmente individuais e, assim, não podem ser considerados pessoas humanas. Embora os zigotos contenham 46 cromossomas e genes humanos, e assim são, de certa forma, humanos, eles não são irrevogavelmente pessoas individuais.

A objeção tem o seu peso. A geminação e a recombinação, porém, podem ser entendidas de tal maneira que a validade do argumento da presença de um indivíduo humano, a partir do momento da fertilização, não seja destruída. Antes da geminação, era, certamente, um único organismo, um ser no seu desenvolvimento inicial. Este começo continua para a existência individual própria. Este ser continua em virtude de sua existência individual. Mas, além deste ser, há um outro ser individual e distinto, cuja origem deve ser explicada. Alguns biólogos pensam que a origem desse segundo ser encontra a sua explicação em certa forma de reprodução assexuada.

Tem-se observado que a vida, nos primeiros estágios de desenvolvimento, se reproduz, algumas vezes, por fissão assexual. Assim também a recombinação poderia ser entendida como se um dos seres originais continuasse seu desenvolvimento e existência, enquanto que o outro cessasse de existir. Em ambos os casos, existe, desde o começo, uma causa e uma origem única de atividades e desenvolvimento de um indivíduo humano.

O argumento filosófico para a presença de um principio vital humano, a partir do momento da fecundação, pode não forçar à concordância, mesmo de alguém com formação filosófica. Apesar disso, o argumento filosófico terá suficiente peso para estabelecer, pelo menos, uma probabilidade da presença de um indivíduo humano desde a sua concepção. Esta probabilidade, por sua vez, é o fundamento para definir a obrigação moral de não expor o feto em desenvolvimento a perigos, ou de matá-lo, deliberadamente, porque somos obrigados a escolher o caminho mais seguro, evitar o prejuízo para um ser que provavelmente é humano.

 

Valores Conflitantes no Aborto

Depois de ter discutido o problema central do aborto, isto é, a humanidade do feto, devemos discutir os argumentos que são, geralmente, invocados, para a justificação do aborto. Todos os argumentos comparam o valor da vida humana em desenvolvimento com algum outro valor. O raciocínio é o seguinte: no caso de valores morais conflitantes, quando apenas um valor pode ser respeitado, que a escolha lógica e moral seja em favor do valor maior.

 

A Vida da Mãe

Em alguns casos, a vida da mãe pode estar em perigo, se continuar a gravidez. Um desses casos é o da gravidez ectópica. Esta ocorre quando o óvulo fecundado não desce até o útero, mas se implanta nas trompas de Falópio e ali começa a desenvolver-se. O embrião não tem chance de crescer, até a viabilidade, e no decurso de seu crescimento, causará ruptura, com hemorragia, pondo em perigo a vida da mãe. No presente estado da medicina, somente a remoção cirúrgica do feto pode salvar a vida da mãe. Aqui, temos o caso de escolha entre duas vidas humanas. Somente a vida da mãe pode ser salva. Seria irrazoável não remover o embrião e deixar que ambas as vidas perecessem. A lei moral é racional e nunca nos obriga a fazer algo que vá contra a sã razão.

Avanços na pesquisa da obstetrícia eliminaram muitos casos dramáticos em que havia um conflito claro entre a vida da mãe e a do feto. As operações cesarianas se tornaram uma rotina, e são usadas sempre que se prevê dificuldade em o nascimento. Elas têm reduzido, grandemente, o dilema de sermos forçados a escolher entre duas vidas. Se, no entanto, houver casos em que, numa boa medicina, não se pode salvar ambas as vidas, o princípio ético permanece válido, a saber, é melhor salvar uma vida do que deixar morrer ambos os seres humanos.

O conflito entre as vidas da mãe e do feto não é, porém, o problema controverso no debate do aborto. A maioria dos abortos são realizados, não para salvar a vida da mãe, mas para alcançar qualquer outro valor humano que se opõe, de alguma forma, à gravidez.

 

A Saúde da Mãe

No caso do aborto terapêutico, a vida do feto se opõe à saúde de uma mulher grávida. Os advogados de uma tal espécie de aborto tentam justificá-lo, afirmando que a saúde física da mãe grávida é mais preciosa do que a vida de um feto; opta-se pelo valor maior, dizem eles. Há, porém, alguns problemas com esta espécie de justificativa. Primeiro, a vida humana é mais valiosa do que a saúde física. A questão, então, permanece em saber se o aborto é necessário para recuperar a saúde. Os métodos modernos de medicina podem resolver a maioria das complicações de gravidez. Doenças que não estão vinculadas à gravidez não são curadas com o aborto, e, se a gravidez intensificar a doença, podem ministrar-se remédios, até que o feto atinja a viabilidade. Não se pretende afirmar, que há casos em que a saúde da mãe não sofra por causa da gravidez ou que esta saúde não seja um grande valor, mas deve-se manter o princípio de que a vida do feto é um valor maior do que a saúde e que os remédios poderão ser aplicados para curar a doença da mãe, em vez de provocar um aborto.

A saúde mental que entra em conflito com a vida do feto oferece razões ainda menos convincentes em favor do aborto. A gravidez normal de uma mulher casada não é uma doença, em si mesma, e não causa doença mental. Problemas psicológicos que, por vezes, ocorrem durante a gravidez, ou suas circunstâncias acompanhantes, podem ser tratados como qualquer outro problema psicológico, sem recorrer ao aborto.

Existem soluções alternativas quanto ao aborto; e, para preservar o feto, somos obrigados a recorrer à terapia, para que não se ponha em perigo a vida humana.

Estupro e Incesto

A mulher cuja gravidez é causada por estupro ou incesto é uma vítima de violência cruel e desumana, Sua angústia mental e seu sofrimento psicológico são o resultado direto de uma gravidez forçada, contra a sua vontade. Estupro, em sentido jurídico, é o termo legal para uma relação sexual ilícita com uma mulher que consente e está abaixo da idade legal para poder permitir um consentimento livre, mas ajudará a esclarecer nossa avaliação moral, quando limitarmos nossa consideração ao estupro e ao incesto em que a mulher é forçada, contra a sua vontade. Argumenta-se que, nestes casos trágicos, o grande valor da saúde mental de uma mulher que engravidou, em virtude de um estupro ou incesto, pode ser assegurado melhor através do aborto. Também se diz que a gravidez causada por estupro ou incesto é resultado de uma grave injustiça e que a vítima não estaria obrigada a levar a gravidez até o fim. O feto continuaria a recordar-lhe, durante nove meses, a violência cometida e apenas aumentaria a sua angústia mental. Raciocina-se que o valor da saúde mental da mulher é maior do que o da vida do feto. Além do mais, sustenta-se que o feto é um agressor contra a integridade da mulher e da sua vida pessoal; é justo e moralmente defensável repelir um agressor, mesmo matando-o, quando este é o único meio de defender valores humanos e pessoais. Conclui-se, então, que o aborto é justificado nestes casos.

Ao discutir os casos criminais de estupro e incesto, devemos evitar mesmo as aparências de insensibilidade em relação à séria situação e ao sofrimento das vítimas. Depois que uma mulher foi violentada, de nada ajudará, pleitearmos uma maior proteção policial e segurança nas ruas. Admite-se que as vítimas da violação recebam tratamento médico imediato para impedir uma concepção. Se a gravidez, apesar disso, ocorre, devemos tomar em consideração o elemento dos valores opostos, a vida do feto e os sofrimentos mentais e físicos da mulher, caso ela levar a gestação até o fim.

Para esclarecer o problema, devemos estabelecer que o feto não é um agressor. O agressor é o estuprador, e o feto é uma vítima inocente, tal como a mãe. Por isso, não pode ser morto, com base na consideração de ser ele o agressor. Se compararmos a vida humana do feto com o esperado alívio psicológico da mulher, através do aborto, aquela, objetivamente, deverá ser colocada em nível mais elevado na escala de valores do que os que a mulher poderia alcançar através do aborto. Nestes casos trágicos, devem ser utilizados caminhos alternativos, para ajudar as vítimas do estupro. Estes incluem ajuda psicológica, religiosa e social, e preparação para a adoção, caso a vítima não queira cuidar da criança. É bem sabido que a sociedade não tem sido sempre suficientemente solícita em ajudar as vítimas do estupro. Recentemente, contudo, a situação tem melhorado.

A polícia, os tribunais e hospitais tratam as vítimas do estupro sempre com maior compreensão e sensibilidade, de modo que as mulheres não são impulsionadas pelo choque a procurar o aborto como único meio de minorar seus sofrimentos. Existem atualmente, mais de 700 centros nos Estados Unidos que ajudam as vítimas do estupro.

 

Aborto Eugênico

Um outro argumento em favor do aborto é apresentado pelos advogados do aborto eugênico: é melhor, para a criança, não nascer do que levar uma vida sobrecarregada de doenças, geneticamente mutilantes. O aborto é recomendado em casos em que certos defeitos são descobertos durante o desenvolvimento do feto. Os defeitos podem ser produzidos por várias causas. Infecções virais podem causar defeitos mutilantes. Exposição à rubéola, por exemplo, especialmente no primeiro trimestre da gravidez, pode causar surdez, catarata, retardamento mental e várias espécies de deformidade. O uso de certas drogas, durante a gravidez, também pode causar defeitos. A talidomida, um tranqüilizante germânico, foi trágico exemplo. De acordo com descobertas recentes, o álcool e o fumo podem prejudicar o feto em desenvolvimento. Muitas anomalias, no entanto, são devidas a defeitos genéticos, isto é, genes defeituosos herdados de um ou de ambos os pais. Distribuição irregular dos cromossomos, também, produz defeitos. Um dos exemplos mais comuns desta anormalidade é a síndrome de Down. Amniocentese e outros testes podem descobrir cerca de 70 doenças hereditárias no feto. A amniocentese faz a análise de uma pequena quantidade de fluido amniótico que envolve o feto, no útero, e contém algumas células fetais. Obtém-se o fluido através da inserção de uma agulha oca no útero. Para a amniocentese ser eficaz, a mulher deve ter pelo menos 16 semanas de gravidez. Deve, então, esperar mais duas ou três semanas para obter os resultados. Recentemente nos Estados Unidos e Europa foi testada uma nova técnica para obter células fetais. É chamado de Chorionic Villi Sampling (CVS). O teste pode ser feito durante os primeiros meses de gravidez e seus resultados podem ser analisados de imediato. É um método indolor e os riscos são provavelmente os mesmos que os da amniocentese. Cerca de uma mulher em 200 casos sofre alguma infecção ou alguma outra complicação que pode levar ao aborto.

Argumenta-se que o aborto eugênico é feito, basicamente, por causa da criança e, apenas secundariamente, por causa da mãe ou de ambos os genitores. Regulamentações recentes da Corte de Apelação de Nova York (1978) e da Corte Suprema de Nova Jersey (1979) responsabilizam, legalmente, os médicos por nascimentos anormais, no caso de omissão em advertir a paciente de que ela talvez possa dar à luz uma criança anormal. Se a negligência do médico priva uma mulher do direito legal de um aborto, pode ser obrigado a pagar os danos de um “nascimento falho”. Estas e semelhantes regulamentações legais, em outros estados, aumentaram a incidência de abortos eugênicos. Alguns eugenistas até vão ao ponto de obrigar a destruição da vida muito defeituosa, antes de seu nascimento. Atualmente, o aborto eugênico é legal, na maioria das nações, mas não é obrigatório.

A moralidade do aborto eugênico deve ser julgada, novamente, através da comparação de valores opostos. A comparação, aqui, é difícil, porque um dos valores é, na realidade, um não-valor, isto é, a interrupção da vida antes que se possa desenvolver plenamente. Poder-se-ia, talvez, falar da ausência de sofrimento, causada pelas deficiências genéticas e pela eliminação de um peso colocado sobre os pais e a sociedade, ao terem de cuidar de uma criança defeituosa. O valor da vida da criança defeituosa deveria ser comparado com estas vantagens. O aborto eugênico não existe por causa do paciente, a criança defeituosa, porque ele não cura a doença, mas simplesmente destrói o paciente. Todos nós gostaríamos de poder impedir ou curar defeitos genéticos, mas este desejo não nos autoriza a destruir a vida incipiente. Parece que muitas crianças defeituosas, às quais é dado nascer, gozam a vida de acordo com suas capacidades. Um bom número delas tornam-se membros úteis da sociedade. Nossa natureza social impõe-nos e, a toda a sociedade, o dever de cuidar dos membros menos afortunados da família humana. O fato de que o número de casais que adotam vítimas de defeitos genéticos tem crescido, rapidamente, nos tempos atuais é um indício de que muitas pessoas entendem essa obrigação comum de nossa humanidade.

 

Mulheres Não-Casadas e Aborto

De acordo com um relatório do Centro Nacional do Controle de Doenças, a maioria das mulheres que requerem o aborto, pelo menos nos Estados Unidos, são jovens e não casadas. As razões destas solicitações são óbvias. Essas mulheres não querem carregar o peso de uma gravidez, conseqüência de suas atividades sexuais antes do casamento. Nestes casos, o aborto está sendo utilizado como método de controle de natalidade. O crescente número de gravidezes e abortos de jovens tem causado uma série de preocupações. Até pessoas a favor do aborto concedem que ele seja o método de controle de natalidade menos aconselhável. O aborto é causa de marcas psicológicas na maioria das mulheres jovens e enfraquece sua habilidade de estabelecer relações matrimonias estáveis e duradouras. Os professores Melvin Zelnik e John F. Kantner, da Escola de Higiene e Saúde Pública Johns Hopkins, fizeram pesquisas periódicas sobre a atividade sexual pré-matrimonial e gravidez de moças entre 15 e 19 anos.

Segundo suas últimas descobertas, cerca de 50% das moças (15-19 anos) dos Estados Unidos, nas áreas metropolitanas tiveram relações sexuais antes do casamento em 1979, contra 30% em 1971 e 43% em 1976. Apesar da disponibilidade dos anticoncepcionais, a gravidez pré-matrimonial destas moças quase duplicou durante a última década. As jovens mulheres legitimam, agora, menos facilmente sua gravidez, através do casamento, do que no passado e estão mais facilmente inclinadas a terminá-la através do aborto.

Durante o mesmo tempo do levantamento acima mencionado, o número de abortos intentados por estas jovens mulheres engravidadas antes do matrimônio subiu de 23% para 33% e finalmente para 37%7.

Os abortos não são certamente a solução para este problema. Autoridades da linha pragmática chegaram à conclusão de que mais informações sobre anticoncepcionais e serviços iriam prevenir as gravidezes e abortos. Mas alguns anos de educação sexual não atingiram este objetivo. Aconteceu exatamente o contrário: a proporção de gravidezes em moças entre 15 e 19 anos quase duplicou e os números absolutos mais do que duplicaram entre 1971 e 1979, de acordo com dados publicados pela Federação da Maternidade Planejada da América. Segundo o Centro Nacional de Estatística da Saúde, “a maioria das crianças negras, 55% em 1979, contra 38% em 1970, nasceram fora do matrimônio. Mas o crescimento percentual de crianças brancas é bem mais pronunciado; o número de filhos ilegítimos subiu de 4,7% em 1970 para 9,4% em 1979”.

Há necessidade de mais educação sexual, mas esta deverá ser real e não apenas constante de uma informação biológica sobre a sexualidade masculina e feminina e sobre anticoncepcionais. A educação sexual deve enfatizar os valores da família, o respeito às pessoas, o sentido do verdadeiro amor, que não é apenas atração sexual, mas principalmente a responsabilidade diante das conseqüências de seus atos. Em outras palavras, os jovens devem ser ensinados a crescer moralmente, a tornar-se pessoas responsáveis que podem entender que o relacionamento sexual conveniente e responsável deveria acontecer entre duas pessoas que se amam, entre duas pessoas maduras unidas num matrimônio estável.

O aborto, como método de controle da natalidade, quer no matrimônio, quer fora dele, não pode ser justificado. Matar seres humanos inocentes indesejados é, aqui, comparado com os problemas sociais e econômicos que seu nascimento causa. Devemos concluir que matar pessoas inocentes é um mal maior do que os males sociais e econômicos reais de uma maternidade ou paternidade extra-matrimonial e não desejada. As soluções alternativas devem vir de dois lados:

a) impedimento da gravidez extra-matrimonial, através da educação moral para uma conduta sexual responsável;

b) ajuda psicológica, social e material para mães solteiras grávidas, para darem à luz a seus filhos. Se não quiserem entregar seus filhos a pais adotivos, deverão ser assistidas para criá-los. Deverão ser especialmente ajudadas, para serem sexualmente maduras e responsáveis em sua vida futura.

 

O papel de adoção, não deve ser esquecido como uma alternativa do aborto. Há muitos casais sem filhos que desejariam adotar uma criança. Nos últimos anos, contudo, é verdade, não houve crianças suficientes para a adoção, por causa do grande número de abortos. Os casos mais freqüentes de aborto, como vimos, não são os trágicos dilemas da vida ou da morte da mãe ou do filho, mas os da gravidez pré-matrimonial. Já que muitos próabortistas estão preocupados com esta situação, deveria haver cooperação, pelo menos nesta área, entre anti-abortistas e pró-abortistas, para reduzir o número de gravidezes pré-matrimoniais e, assim, impedir um grande número de abortos. O aborto, certamente, tem de ser julgado como sendo o pior método de controle de natalidade.

 

 

Questões Para Revisão e Discussão

1.       Como julgava o mundo antigo a moralidade do aborto?

2.       Pode a Suprema Corte tornar corretas as ações que, por sua própria natureza, são moralmente erradas ou vice-versa?

3.       Qual é a diferença entre legalidade e moralidade?

4.       Quando inicia a vida humana? Pode a embriologia decidir a questão? Pode a filosofia, aplicando o principio da causalidade, complementar a biologia em relação a esta questão?

5.       Há uma diferença entre personalidade e “humanidade”?

6.       Como avalia (julga) a moralidade do ato de salvar a vida da mãe através do aborto, quando, sem esta intervenção abortiva, mãe e filho morreriam?

7.       Quais são os valores humanos dos pró-abortistas ao tentarem defender o aborto? Como julga estes valores em oposição á vida do feto?

8.       Como avalia (julga) os problemas sociais e éticos do aborto procurado por jovens mulheres não casadas?

(Do livro “Problemas de bioética”, de Andrew C. Varga, Editora UNISINOS, pgs.64-76)


A questão do aborto

 

Drauzio Varella

 

DESDE QUE a pessoa tenha dinheiro para pagar, o aborto é permitido no Brasil.  Se a mulher for pobre porém, precisa provar que foi estuprada ou estar à beira da morte para ter acesso a ele. Como conseqüência, milhões de adolescentes e mães de família engravidaram sem querer recorrerem ao abortamento clandestino, anualmente.

A técnica desses abortamentos geralmente se baseia no princípio da infecção: a curiosa introduz uma sonda de plástico ou agulha de tricô através do orifício existente no colo do útero e fura a bolsa de líquido na qual se acha imerso o embrião. Pelo orifício, as bactérias da vagina invadem rapidamente o embrião desprotegido. A  infecção faz o útero contrair e eliminar seu conteúdo.

O procedimento é doloroso e sujeito a complicações sérias, porque nem sempre o útero consegue  se livrar de todos os tecidos embrionários. As membranas que revestem a bolsa líquida são especialmente difíceis de eliminar. Sua persistência na cavidade uterina serve de caldo de cultura para as  bactérias que subiram pela vagina, provoca hemorragia, febre e toxemia.

A natureza clandestina do procedimento dificulta a procura por socorro médico, logo que a febre se instala. Nessa situação, a insegurança da paciente em relação à atitude da família, o medo das perguntas no hospital, dos comentários da vizinhança e a própria ignorância a respeito da gravidade do quadro colaboram para que o tratamento não seja instituído com a urgência que o caso requer.

A septicemia resultante da presença de restos infectados na cavidade uterina é causa de morte freqüente entre as mulheres brasileiras em idade fértil Para ter idéia, embora os números sejam difíceis de estimar, se contarmos apenas os casos de adolescentes atendidas pelo SUS para tratamento das complicações de abortamentos no período de 93 a 98, o número ultrapassou 50 mil. Entre elas, 3.000 meninas de 10 a 14 anos.

Embora cada um de nós tenha posição pessoal a respeito do aborto, é possível caracterizar três linhas mestras do pensamento coletivo em relação ao tema.

Há os que são contra a interrupção da gravidez em qualquer fase, porque imaginam que a alma se instale no momento em que o espermatozóide penetrou no óvulo. Segundo eles, a partir desse estágio microscópico o produto conceptual deve ser sagrado. Interromper seu desenvolvimento aos dez dias da concepção constituiria crime tão grave quanto tirar a vida de alguém aos 30 anos depois do nascimento. Para os que pensam assim, a mulher grávida é responsável pelo estado em que se encontra e deve arcar com as conseqüências de trazer o filho ao mundo, não importa em que circunstâncias.

No segundo grupo, predomina o raciocínio biológico segundo o qual o feto, até a 12a. semana de gestação, é portador de um sistema nervoso tão primitivo que não existe possibilidade de apresentar o mínimo resquício de atividade mental ou consciência. Para eles, abortamentos praticados até os três meses de gravidez deveriam ser autorizados, pela mesma razão que as leis permitem a retirada do coração de um doador acidentado cujo cérebro se tomou incapaz de recuperar a consciência.

Finalmente, o terceiro grupo atribui à fragilidade da condição humana e à habilidade da natureza em esconder das mulheres o momento da ovulação, a necessidade de adotar uma atitude pragmática: se os abortamentos acontecerão de qualquer maneira, proibidos ou não, melhor que sejam realizados por médicos, bem no início da gravidez.

Conciliar posições dispares como essas é tarefa impossível. A simples menção do assunto provoca reações tão emocionais quanto imobilizantes. Então, alheios à tragédia das mulheres que morrem no campo e nas periferias das cidades brasileiras, optamos por deixar tudo como está. E não se fala mais no assunto.

A questão do aborto está mal posta. Não é verdade que alguns sejam a favor e outros contrários a ele. Todos são contra esse tipo de solução, principalmente os milhões de mulheres que se submetem a ela anualmente por não enxergarem alternativa. É  lógico que o ideal seria instruí-las para jamais engravidarem sem deseja-lo, mas a natureza humana é mais complexa: até médicas ginecologistas ficam grávidas sem querer.

Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias; quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública que exige solução urgente. (Folha de são Paulo – 26.08.2000)