VIII – Ressonâncias do cuidado

 

O  cuidado como modo-de-ser perpassa toda existência humana e possui ressonâncias em diversas atitudes importantes. Através dele as dimensões de céu (transcendência) e as dimensões de terra (imanência) buscam seu equilíbrio e co-existência. Realiza-se também no reino dos seres vivos, pois toda vida precisa de cuidado, caso contrário adoece e morre. Basta citar o exemplo do Tucunaré, um de nossos peixes mais apreciados. Pai e mãe têm imenso cuidado com seus filhotes (alevinos). Fazem o ninho escavando um buraco no fundo do rio e circulam sempre ao redor para protegê-los. Quando ensaiam sair do ninho, os acompanham com cuidado e os alertam contra a dispersão. Ao mínimo risco os filhotes voltam todos juntos ao ninho guiados pelos pais. Os retardatários são recolhidos cuidadosamente dentro da boca dos pais e devolvidos ao grupo.

Vamos inventariar algumas das muitas ressonâncias do cuidado. Trata-se de conceitos afins que se desentranham do cuidado e o traduzem em distintas concreções. Privilegiamos estas sete: o amor como fenômeno biológico, a justa medida, a ternura, a carícia, a cordialidade, a convivialidade e a compaixão. Poder-se-ia acrescentar ainda a sinergia, a hospitalidade, a cortesia e a gentileza. Mas elas estarão implícitas nas que abordaremos.

 

1.     O amor como fenômeno biológico

 

Amor é uma das palavras mais desgastadas de nossa linguagem. E como fenômeno inter-pessoal, um dos mais desmoralizados. Abordaremos o tema do amor na ótica fecunda de um dos maiores biólogos contemporâneos, o chileno Humberto Maturana. Em suas reflexões o amor é contemplado como um fenômeno biológico. Ele se dá dentro do dinamismo da vida, desde as suas realizações mais primárias, de bilhões e bilhões de anos atrás, até as mais complexas no nível humano. Vejamos como se introduz o amor no universo.

Na natureza se verificam dois tipos de acoplamentos dos seres com seu meio, um necessário e outro espontâneo. O primeiro, o necessário, faz com que todos os seres estejam interconectados uns aos outros e acoplados aos respectivos ecossistemas* como garantia para a sobrevivência. Mas há um outro acoplamento que se realiza espontaneamente. Os seres interagem sem razões de sobrevivência, por puro prazer, no fluir de seu viver. Trata-se de encaixes dinâmicos e recíprocos entre os seres vivos e os sistemas orgânicos. Não há justificativas para eles. Acontecem porque acontecem. É um evento original da vida em sua pura gratuidade.

Quando um acolhe o outro e assim se realiza a co-existência surge o amor como fenômeno biológico. Ele tende a expandir-se e a ganhar formas mais complexas. Uma destas formas é a humana. Ela é mais que simplesmente espontânea como nos demais seres vivos; é feita projeto da liberdade que acolhe conscientemente o outro e cria condições para que o amor se instaure como o mais alto valor da vida.

Nessa deriva surge o amor ampliado que é a socialização. O amor é o fundamento do fenômeno social e não uma conseqüência dele. Em outras palavras, é o amor que dá origem à sociedade; a sociedade existe porque existe o amor e não ao contrário, como convencionalmente se acredita. Se falta o amor (o fundamento) destrói-se o social. Se, não obstante, o social persistir, ganha a forma de agregação forçada, de dominação e de violência de uns contra os outros, coagidos a encaixar-se. Por isso sempre que se destrói o encaixe e a congruência entre os seres, destrói-se o amor e, com isso, a sociabilidade. O amor é sempre uma abertura ao outro e uma con-vivência e co-munhão com o outro.

Não foi a luta pela sobrevivência do mais forte que garantiu a persistência da vida e dos indivíduos até os dias de hoje, mas a cooperação e a co-existência entre eles. Os hominídeos*, de milhões de anos atrás, passaram a ser humanos na medida em que mais e mais partilhavam entre si os resultados da coleta e da caça e compartilhavam seus afetos. A própria linguagem que caracteriza o ser humano surgiu no interior deste dinamismo de amor e de partilha.

A competição, enfatiza Maturana, é anti-social, hoje e outrora, porque implica a negação do outro, a recusa da partilha e do amor. A sociedade moderna neoliberal, especialmente o mercado, se assenta na competição. Por isso é excludente, inumana e faz tantas vítimas. Essa lógica impede que seja portadora de felicidade e de futuro para a humanidade e para a Terra.

Como se caracteriza o amor humano? Responde Maturana: “o que é especialmente humano no amor não é o amor, mas o que fazemos no amor enquanto humanos...; é a nossa maneira particular de viver juntos como seres sociais na linguagem...; sem amor nós não somos seres sociais”.

O amor é um fenômeno cósmico e biológico. Ao chegar ao nível humano, ele se revela como a grande força de agregação, de simpatia, de solidariedade. As pessoas se unem e recriam pela linguagem amorosa o sentimento de benquerença e de pertença a um mesmo desti­no e a uma mesma caminhada histórica.

Sem o cuidado essencial, o encaixe do amor não ocorre, não se conserva, não se expande nem permite a consorciação entre os seres. Sem o cuidado não há atmosfera que propicie o florescimento daquilo que verdadeiramente humaniza: o sentimento profundo, a vontade de partilha e a busca do amor.

 

 

2. A regra de ouro: a justa medida

 

No capítulo anterior nos confrontamos com a questão da justa medida entre o modo-de-ser-trabalho e o modo-de-ser-cuidado. Havíamos constatado o profundo desequilíbrio da cultura mundializada sob a ditadura do modo-de-ser-trabalho. A questão é: quanto de cuidado devemos incorporar para resgatar o equilíbrio perdido? Eis uma questão fundamental para a teoria e a prática.

Façamos uma primeira constatação: o sentido da medida é encontrado em muitos campos que vão da geometria à religião. Mas é especialmente no campo da ética que a justa medida assume uma importância axial. Trata-se de encontrar o ótimo relativo, o equilíbrio entre o mais e o menos.

Por um lado, a medida é sentida negativamente como limite às nossas pretensões. Daí nasce a vontade e até o prazer de ultrapassar o limite e de violar o proibido. Por outro, é sentida positivamente como a capacidade de usar, de forma moderada, potencialidades naturais, sociais e pessoais para que mais possam durar e reproduzir-se. Isso só é possível quando se estabelece um certo equilíbrio e uma justa medida. A justa medida se alcança pelo reconhecimento realista, pela aceitação humilde e pela ótima utilização dos limites, conferindo sustentabilidade a todos os fenômenos e processos, à Terra, às sociedades e às pessoas.

Especialmente forte é esta busca nas culturas da bacia mediterrânea, particularmente entre os egípcios, gregos latinos e hebreus. Diz-se até que é o espaço da cultura da medida e também da desmedida porque lá foram elaboradas as ideologias mais excessivas e as guerras sem qualquer contenção. Essa busca é preocupação central no budismo e na filoso­fia ecológica do Feng-shui chinês. Para todas o símbolo era a balança  e as respectivas divindades femininas, tutoras do equilíbrio.

A busca da medida está cercada de questões espinhosas que não de­vem ser escamoteadas como:

-  qual é a medida justa?

-  quem estabelece a medida justa?

-  a partir de que fontes de conhecimento se estabelece a medida justa?

-  a medida não depende sempre das culturas, das situações históricas diferentes, da subjetividade humana pessoal e coletiva?

-  quem é responsável pela observância da medida justa estabelecida?

Não pretendemos responder a cada uma dessas questões. Isso nos levaria longe. Mas tentaremos uma reflexão que minimamente as englobe.

Muitos foram os caminhos seguidos para fundar uma justa medida. Geralmente se apoiavam numa única pilastra: ou deriva somente ­da natureza; ou somente da razão universal; ou unicamente das ciências empíricas; ou somente da sabedoria dos povos; ou unicamente das religiões; ou somente da revelação divina contida nos textos sagrados da tradição judaico-cristã, dos Upanishad*, do taoísmo*.

Hoje mais e mais estamos convencidos de que nada pode ser reduzido a uma única causa (monocausalidade) ou a um único fator Pois :nada é linear e simples. Tudo é complexo e vem urdido de inter-retro-relações e de redes de inclusões. Por isso precisamos articular aquelas várias pilastras. Elas sustentam uma ponte que poderá levar-nos a soluções mais integradoras. Pois todas elas trazem alguma luz e comunicam alguma verdade. Sabedoria é ver cada porção dentro de um todo articulado qual bela figura de mosaico composta de milhares de pastilhas e deslumbrante bordado feito de mil fios coloridos.

 

a)     Medida justa e natureza

 

Por natureza entendemos o conjunto dos seres orgânicos e inorgânicos, as energias e os campos energéticos e morfogenéticos que existem organizados em sistemas dentro de outros sistemas maiores, sejam ou não afetados pela intervenção humana, constituindo um todo orgânico, dinâmico e em busca de um equilíbrio. O ser humano é parte e parcela da natureza e entretém com ela uma sofisticada rede de relações, fazendo com que ele co-pilote o processo de evolução junto com as forças diretivas da Terra.

 

A natureza é uma realidade tão complexa e vasta que não pode ser apanhada por nenhuma definição. O que é a natureza em si permanece um mistério, como mistério é o ser e o nada. O que possuímos são discursos culturais sobre a natureza: dos antigos, do hinduísmo* na Índia, do taoísmo* na China, do zen-budismo* no Japão, da moderna ciência copernicana, da mecânica quântica, da teoria dos sistemas abertos, da biologia genética e molecular, da nova cosmologia baseada nas ciências da Terra. Nossa compreensão muito deve a estas tradições, especialmente à última vertente. Em função de cada compreensão decide-se que tipo de natureza deve ser preservada.

Quando contemplamos a natureza, a despeito das expressões caóticas e da intrincadíssima complexidade, salta logo aos olhos uma medida imanente que resulta não das partes tomadas isoladamente, mas do todo orgânico e vivo. Há harmonia e equilíbrio. Ela não é biocentrada, centrada só na vida, mas no equilíbrio dinâmico entre vida e morte.

 

Para os contemporâneos a natureza resulta de um imenso processo de evolução que vai além do modelo de Charles Darwin (1809-1882) que fundamentalmente a restringia à biosfera. A compreensão atual - chamada de teoria da evolução sintética - entende a evolução como uma teoria universal: a partir do big bang tudo no universo está em evolução. Esse processo não é linear mas dá saltos, conhece flu­tuações* e bifurcações. Não só se expande mas cria possibilidades sovas. Significa que as leis naturais não possuem caráter determinístico mas probabilístico.

Os conhecimentos da termodinânica* nos sinalizam que a vida e qualquer novidade no universo surge a partir de certa distância e de certa ruptura do equilíbrio. Essa ausência de medida, embora momentânea, provoca a auto-organização (autopoiese*) que cria uma nova estabilidade e um novo equilíbrio dinâmico. É dinâmico porque continuamente se refaz, não pela reprodução do equilíbrio anterior, mas pela criação de um novo, mediante o diálogo com o meio e uma nova adaptação. A lógica da natureza em processo evolutivo é esta: organização - quebra do equilíbrio – desorganização - nova relação - novo equilíbrio - nova organização. E assim permanentemente.

Não significa que a natureza não possua uma medida (leis da natureza); ela possui uma medida não estática e mecânica, mas dinâmica e flutuante, caracterizada por constâncias e variações. Há fases de :ruptura para logo em seguida gestar nova regularidade. O clima da Terra por exemplo, que já tem 3,8 bilhões de anos, passou por turbulências e terríveis devastações. A Terra já foi quase duas vezes mais quente que hoje, mas apesar disso, mostrou ao longo do tempo bilionário um incrível equilíbrio dinâmico que tem favorecido benevolamente todas as formas de vida.

A natureza vista como um todo não impõe prescrições. Aponta para tendências e regularidades que podem ir em várias direções. Cabe ao ser humano desenvolver uma sensibilidade tal que lhe per­tinta captar essas tendências e tomar suas decisões. A natureza não o dispensa de decidir e de exercer a sua liberdade. Só então ele se mos­tra um ser ético.

Esse espaço de intervenção e criação do ser humano consciente e responsável é um dado da natureza. Assim como ela continuamente busca, faz e refaz dinamicamente uma medida, da mesma forma deve o ser humano buscar a justa medida. Não de uma vez por todas, mas sempre em atenção ao que está ocorrendo na natureza, na história e nele mesmo. A medida justa muda. O que não muda, é a permanente busca da justa medida.

Há de se considerar ainda o processo global que mostra uma seta do tempo apontando sempre para frente e para cima, processo que quanto mais avança, menos se auto-copia, menos clonagens faz e mais diversidades apresenta. As medidas variam, mas cada medida encontrada serve a um propósito superior de levar mais avante a seta da evolução.

 

h)     Medida justa e pathos

 

Como o ser humano capta essa medida multidimensional da natureza? Não basta o saber racional, nem a vontade obediente de identificar regularidades, dispensando a criatividade humana e o exercício da liberdade, próprias do ser humano. Importa desenvolver uma atitude atenta de escuta, um sentimento profundo de identificação com a natureza, com suas mudanças e estabilidades. O ser humano precisa sentir-se natureza. Quanto mais mergulha nela, mais sente quando deve mudar e quando deve conservar em sua vida e em suas relações.

Os povos indígenas nos dão o melhor exemplo de como escutar a natureza. Por uma afinidade profunda com ela, com os solos, as chuvas, as nuvens, os ventos, as águas, as plantas e os animais sabem, de golpe, o que vai acontecer e que atitude tomar. Estão tão unidos à Terra como seus filhos e filhas, como a própria Terra falante e pensante, que captam, imediatamente, o que vai ocorrer na natureza. Ou melhor, a natureza fala com eles e por eles.

Investigações feitas em grandes centros metropolitanos europeus e norte-americanos constataram que um aumento de conhecimentos acerca da crise ecológica e das feridas da Terra não leva necessariamente a uma transformação nas atitudes de mais respeito e de mais veneração para com ela. O que é imprescindível não é o saber, afirmam, mas o sentir. Quanto mais uma pessoa sofre com a degradação do meio ambiente, se indigna com o sofrimento dos animais e se revolta contra a destruição da mancha verde da Terra, mais desenvolve novas atitudes de compaixão, de enternecimento, de proteção da natureza e uma espiritualidade cósmica.

Novamente encontramos aqui o pathos*, sentimento profundo, na raiz do novo paradigma de convivência com a Terra. Dessa ausculta da Terra e da paixão por ela, nasce o cuidado essencial. Sem essa escuta cuidadosa não ouviremos a grande voz da Terra a convidar-nos para a sinergia*, a compaixão, a co-existência pacífica com todos os seres.

Essa atitude é exigida, por exemplo, no âmbito da biotecnologia, um dos campos mais avançados da ciência. Qual a justa medida na intervenção no código genético humano? Ela não se encontra escrita em nenhum lugar. O ser humano precisa estabelecê-la a partir de uma profunda sensibilidade e comunhão com a própria vida. Se ele entrar no seu laboratório de experimentação genética como quem entra num templo e operar os processos como quem faz uma liturgia – pois a vida é misteriosa e sagrada e demanda tais atitudes de reverência - sentirá, mais do que simplesmente saberá, o que pode ou não fazer. É o sentir carregado de cuidado, de responsabilidade e de compaixão. A partir desse pathos* se torna absurdo querer subordinar o novo conhecimento genético à obtenção de lucros, como se a vida fosse uma simples mercadoria colocada no balcão de compras e vendas.

A atitude de sentir com cuidado deve transformar-se em cultura e demanda um processo pedagógico para além da escola formal que atravessa as instituições e faz surgir um novo estado de consciência e de conexão com a Terra e com tudo o que nela existe e vive.

Como reza tão bem o salmo (119,19), sentimo-nos “hóspedes nesta Terra”, hóspedes respeitosos do hospedeiro Terra. E deixamos a Casa Comum sempre em ordem para outros hóspedes que vierem depois de nós.

 

3. A ternura vital

 

A ternura vital é sinônimo de cuidado essencial. A ternura é o afeto que devotamos às pessoas e o cuidado que aplicamos às situações existenciais. E um conhecimento que vai além da razão, pois mostra-se como inteligência que intui, vê fundo e estabelece comunhão. A ternura é o cuidado sem obsessão: inclui também o trabalho, não como mera produção utilitária, mas como obra que expressa a criatividade e a auto-realização da pessoa. Ela não é efeminação e re­núncia de rigor no conhecimento. É um afeto que, à sua maneira, também conhece. Na verdade só conhecemos bem quando nutri­mos afeto e nos sentimos envolvidos com aquilo que queremos conhecer A ternura pode e deve conviver com o extremo empenho por uma causa, como foi exemplarmente demonstrado pelo revolucionário absoluto Che Guevara (1928-1968). Dele guardamos a sentença inspiradora: “hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”.

A ternura emerge do próprio ato de existir no mundo com os outros. Não existimos, co-existimos, con-vivemos e co-mungamos com as realidades mais imediatas. Sentimos nossa ligação fundamental como a totalidade do mundo. Esse sentimento é mais do que uma moção psicológica, é um modo de ser existencial que perpassa todo o ser. A concentração no sentimento gera o sentimentalismo. O sentimentalismo é um produto da subjetividade mal integrada. É o sujeito que se dobra sobre si mesmo e celebra as suas sensações. Ao contrário, a ternura irrompe quando o sujeito se descentra de si mesmo, sai na direção do outro, sente o outro como outro, participa de sua existência, deixa-se tocar pela sua história de vida. O outro marca o sujeito. Este demora-se no outro não pelas sensações que lhe produz, mas por amor, pelo apreço de sua diferença e pela valorização de sua vida e luta.

A relação de ternura não envolve angústia porque é livre de busca de vantagens e de dominação. O enternecimento é a força própria do coração, é o desejo profundo de compartir caminhos. A angústia do outro é minha angústia, seu sucesso é meu sucesso e sua salvação ou perdição é minha salvação e perdição, não só minha mas de todos os seres humanos.

Blaise Pascal (1623-1662), filósofo e matemático francês do século XVII, introduziu uma distinção importante para nos ajudar a entender o cuidado e a ternura: o esprit de finesse e o esprit de géometrie.

O esprit de finesse é o espírito de finura, de sensibilidade, de cuida­do e de ternura. O espírito não só pensa e raciocina. Vai além e acrescenta sensibilidade, intuição e capacidade de união ao raciocínio e ao pensamento. Do espírito de finura nasce o mundo das excelências, das grandes significações, dos valores e dos compromissos para os quais vale dispender energias e tempo.

O esprit de géometrie é o espírito calculatório e obreirista, interessado na eficácia e no poder. É o modo-de-ser que imperou na modernidade. Ele colocou num canto, sob muitas suspeitas, tudo o que tem a ver com o afeto, o enternecimento e o cuidado essencial. Daí deriva também o vazio aterrador de nossa cultura “geométrica” com sua pletora de sensações mas sem experiências profundas; com um acúmulo fantástico de saber mas com parca sabedoria, com demasia­do vigor da musculação, do sexualismo, dos artefatos de destruição mostrados nos serial killer mas sem ternura e cuidado para com a Ter­ra, para com seus filhos e filhas, para com o futuro comum de todos.

 

4. A carícia essencial

 

A carícia constitui uma das expressões máximas do cuidado. Por que dizemos carícia essencial? Porque queremos distingui-la da carícia como pura excitação psicológica, em função de uma benquerença fugaz e sem história. A carícia-excitação não envolve o todo da pessoa. A carícia é essencial quando se transforma numa atitude, num modo de ser que qualifica a pessoa em sua totalidade, na psique, no pensamento, na vontade, na interioridade, nas relações que estabelece.

O órgão da carícia é, fundamentalmente, a mão: a mão que toca, a mão que afaga, a mão que estabelece relação, a mão que acalenta, a mão que traz quietude. Mas a mão não é simplesmente mão. É a pessoa humana que através da mão e na mão revela um modo-de-ser carinhoso. A carícia toca o profundo do ser humano, lá onde se situa seu centro pessoal. Para que a carícia seja verdadeiramente essencial precisamos afagar o eu profundo e não apenas o ego superficial da consciência.

A carícia que nasce do centro confere repouso, integração e confiança. Daí o sentido do afago. Ao acariciar a criança, a mãe lhe comunica a experiência mais orientadora que existe: a confiança fundamental na bondade da realidade e do universo; a confiança de que, no fundo, tudo tem sentido; a confiança de que a paz e não o conflito é a palavra derradeira; a confiança na acolhida e não na exclusão do grande Útero.

Como a ternura, a carícia exige total altruísmo, respeito pelo outro e renúncia a qualquer outra intenção que não seja a da experiência de querer bem e de amar. Não é um roçar de peles, mas um investi­mento de carinho e de amor através da mão e da pele.

O afeto não existe sem a carícia, a ternura e o cuidado. Assim como a estrela precisa de aura para brilhar, assim o afeto precisa da carícia para sobreviver. É a carícia da pele, do cabelo, das mãos, do rosto, dos ombros, da intimidade sexual que confere concretitude ao afeto e ao amor. É a qualidade da carícia que impede o ato de ser mentiroso, falso ou dúbio. A carícia essencial é leve como um entreabrir suave da porta. Jamais há carícia na violência de arrombar portas e janelas, quer dizer, na invasão da intimidade da pessoa.

Disse com precisão o psiquiatra colombiano Luís Carlos Restrepo: “A mão, órgão humano por excelência, serve tanto para acariciar como para agarrar. Mão que agarra e mão que acaricia são duas facetas extremas das possibilidades de encontro inter-humano”. No contexto de nossa reflexão, a mão que agarra corporifica o modo-de-ser-trabalho. Agarrar é expressão do poder sobre, da manipulação, do enquadramento do outro ou das coisas ao meu modo de ser. A mão que acaricia representa o modo-de-ser-cuidado, pois “a carícia é uma mão revestida de paciência que toca sem ferir e solta para permitir a mobilidade do ser com quem entramos em contacto”.

 

5. A cordialidade fundamental

 

A justa medida, a ternura vital, a carícia essencial e a cordialidade fundamental são qualidades existenciais, quer dizer, formas de estruturação do ser humano naquilo que o faz humano. O cuidado, com a corte de suas ressonâncias, é o artesão de nossa humanidade. Isso vale também para a cordialidade, tão mal interpretada na cultura brasileira desde que foi introduzida como categoria de análise sociológica no final dos anos 30.

Normalmente ela é tomada como expressão da emotividade no sentido psicológico, em contraposição à racionalidade. Diz-se que o brasileiro é cordial. E o é de fato. Coloca nas coisas mais coração que lógica. Mas cuidado! O coração-emotividade pode produzir tanto o fino trato, o senso da hospitalidade, a exuberância contida do prazer, como os rompantes de violência e os ódios profundos característicos de certas famílias do Nordeste canavieiro. Essas contradições se mos­tram mais nas elites nacionais do que nas camadas populares, pois elas historicamente “caparam e recaparam, sangraram e ressangraram o povo brasileiro” (Capistrano de Abreu).

Quando falamos de cordialidade como ressonância do cuidado pensamos em outra direção. Vemos o coração como uma dimensão do espírito de finura, como capacidade de captar a dimensão de valor presente nas pessoas e nas coisas. O decisivo não são os fatos. Mas o que os fatos produzem de significações em nós, enriquecendo-nos e transformando-nos. Aqui surge a dimensão de valor, daquilo que conta, pesa e definitivamente nos interessa. O valor transforma os fatos em símbolos e em sacramentos. Deixam de ser fatos simples­mente ocorridos e passados, mas se tornam portadores de evocação, de significação e de memória.

Ora é próprio do coração captar a dimensão axiológica, valorativa do Ser em sua totalidade e em suas manifestações nos entes concretos. Cordialidade significa então aquele modo de ser que descobre um coração palpitando em cada coisa, em cada pedra, em cada estrela e em cada pessoa. É aquela atitude tão bem retratada pelo Pequeno Príncipe: “só se vê bem com o coração”. O coração consegue ver além dos fatos; vê seu encadeamento com a totalidade; discerne significações e descobre valores. A cordialidade supõe a capacidade de sentir o coração do outro e o coração secreto de todas as coisas. A pessoa cordial ausculta, cola o ouvido à realidade, presta atenção e põe cuidado em todas as coisas.

Na América Latina, foi a cultura náhuatl dos astecas do México que conferiu especial significação ao coração. A definição de ser humano não é, como entre nós, a de um animal racional, mas a de “dono de um rosto e de um coração”. O rosto identifica e distingue o ser humano de outros seres humanos. Pelo rosto o ser humano se relaciona eticamente com o outro. No rosto fica estampado se o acolhemos, se dele desconfiamos, se o excluímos. O coração, por sua vez, define o modo-de-ser e o caráter da pessoa, o princípio vital donde provêm todas as suas ações.

A educação refinada dos astecas, conservada em belíssimos textos, visava formar nos jovens um rosto claro, bondoso e sem sombras, aliado a um coração firme e caloroso, determinado e hospitaleiro, solidário e respeitoso das coisas sagradas. Segundo eles, era do coração que nascia a religião que utilizava “a flor e o canto” para venerar suas divindades. Colocavam coração em todas as coisas que faziam. Essa cor-dialidade passava às obras de arte que criavam. O grande pintor renascentista alemão, Albrecht Dürer, ao contemplar, em 1520, objetos de arte astecas doados ao imperador Carlos V por Hernan Cortés, deixou consignado em seu diário este testemunho: “Em toda a minha vida não vi nada que haja alegrado tanto meu coração como estas coisas. Nelas encontrei objetos maravilhosamente artísticos e me admirei da genialidade sutil dos homens destas terras estranhas”. Era a ressonância do cuidado e da compaixão expressando-se nos objetos de arte astecas.

 

6. A convivialidade necessária

 

Acolitando a cordialidade, vem a convivialidade. A convivialidade, como conceito, foi posta em circulação por Ivan Illich, um dos grandes profetas latino-americanos. Nascido em Viena em 1926, trabalhou na América Latina ou com os latinos nos EUA. Através da convivialida­de, tentou responder a duas crises da atualidade, intimamente inter­ligadas: a crise do processo industrialista e a crise ecológica.

Vejamos em primeiro lugar a crise do processo industrialista. A relação do ser humano sobre o instrumento se tomou uma relação do instrumento sobre o ser humano. Criado para substituir o escravo, o instrumento tecnológico acabou por escravizar o ser humano ao visar a produção em massa. Fez surgir uma sociedade de aparatos, mas sem alma. A produção industrial vigente não combina com a fantasia e a criatividade dos trabalhadores. Deles só quer utilizar a força de trabalho, muscular ou intelectual. Quando incentiva a criatividade, é em vista da qualidade total do produto que beneficia mais a empresa do que o trabalhador.

Entretanto, constitui um sinal dos tempos o fato de muitos empresários tomarem consciência desta distorção e se confrontarem direta­mente com a desumanização da sociedade industrial. Muitos começam a colocar na agenda da empresa a discussão sobre o novo paradigma da re-ligação, a subjetividade, a espiritualidade e as relações de cooperação e de sinergia entre todos, empresários e trabalhadores.

O que se entende por convivialidade? Entende-se a capacidade de fazer conviver as dimensões de produção e de cuidado, de efetividade e de compaixão; a modelagem cuidadosa de tudo o que produzimos, usando a criatividade, a liberdade e a fantasia; a aptidão para manter o equilíbrio multidimensional entre a sociedade e a natureza, reforçando o sentido de mútua pertença.

A convivialidade visa combinar o valor técnico da produção material com o valor ético da produção social e espiritual. Depois de termos elaborado a economia dos bens materiais, importa desenvolver, urgentemente, a economia das qualidades humanas. O grande capital, infinito e inesgotável, não é porventura o ser humano?

Os valores humanos da sensibilidade, do cuidado, da convivialidade e da veneração podem impor limites à voracidade do poder-do­minação e à produção-exploração.

Em segundo lugar, convivialidade se entende como uma derradeira resposta à crise ecológica, produzida pelo processo industrialista dos últimos quatro séculos. O processo irresponsável de depredação do ambiente pode provocar uma dramática devastação do sistema-Terra e de todas as organizações que o gerenciam.

Esse cenário não é de forma nenhuma improvável. Ele ocorreu antes, com a derrocada da bolsa de Wall Street em 1929. Naquela ocasião era apenas uma crise parcial do sistema capitalista. Agora se trata de uma crise do sistema global. Num contexto de ruptura generalizada, a primeira reação do sistema imperante será certamente aumentar o controle planetário e usar violência massiva para garantir a manutenção do processo produtivo e do sistema financeiro. Tal diligência, em vez de aliviar a crise, a radicalizará por causa do cresci­mento do desemprego tecnológico e da ineficácia das políticas de integração das vítimas dentro da única sociedade mundial.

Segundo Illich, a crise pode transformar-se em catástrofe de dimensões apocalípticas. Mas pode ser também uma chance única para definir um uso convivial dos instrumentos tecnológicos a serviço da preservação do planeta, do bem-estar da humanidade e da cooperação entre os povos.

Para se chegar a esse novo patamar, provavelmente a humanidade deverá passar por uma sexta-feira santa sinistra, que precipitará no abismo a ditadura do modo-de-ser-trabalho-produção-material. Só então poderá haver um domingo de ressurreição, a reconstrução da sociedade mundial sobre a base do cuidado.

O primeiro parágrafo do novo pacto social entre os povos sobreviventes definirá o estabelecimento sagrado da auto-limitação e a obrigação de viver sob ajusta medida, no cuidado para com a herança que recebemos do universo, na ternura essencial para com os humanos e no respeito pelos outros seres da criação. A produção será con­vivial, pois garantirá o suficiente para atender as necessidades humanas e o adequado para realizar projetos solidários. O ser humano terá aprendido a usar os instrumentos tecnológicos como meios e não como fins; terá aprendido a con-viver com todas as coisas como seus irmãos e irmãs, sabendo tratá-las com reverência e respeito.

Quando esse evento bem-aventurado ocorrer, ter-se-á inaugurado o novo milênio como a vigência de um novo paradigma de civilização, mais propício à vida, na justiça e na fraternura entre todos.

 

 

7. A compaixão radical

 

Esta última irradiação do cuidado - a compaixão radical - representa a contribuição maior que o budismo ofereceu à humanidade. Ela é considerada a virtude pessoal de Buda, cujo nome real era Siddharta Gautama que viveu entre o VI-V século antes de nossa era. A compaixão se insere dentro da experiência básica do budismo, articulando dois movimentos diferentes mas complementares: o desapego total do mundo, mediante a ascese e o cuidado com o mundo, mediante a compaixão. Pelo desapego, o ser humano se liberta da escravidão do desejo de posse e de acumulação. Pelo cuidado, se re-liga ao mundo afetivamente, responsabilizando-se por ele.

A com-paixão não é um sentimento menor de “piedade” para com quem sofre. Não é passiva mas altamente ativa. Com-paixão, como a filologia latina da palavra o sugere, é a capacidade de com­partilhar a paixão do outro e com o outro. Trata-se de sair de seu próprio círculo e entrar na galáxia do outro enquanto outro para sofrer com ele, alegrar-se com ele, caminhar junto com ele e construir a vida em sinergia com ele.

Em primeiro lugar, essa atitude leva à renúncia de dominar e, no limite, de matar qualquer ser vivo, recusando toda violência contra a natureza. Em segundo lugar, procura construir a comunhão a partir dos que mais sofrem e mais são penalizados. Somente começando pelos últimos é que se abre a porta para uma sociedade realmente integradora e includente. A filosofia chinesa do Feng-shui*, como veremos, propõe uma forma cuidadosa de tratar a natureza e de organizar ecologicamente os jardins e a casa humana.

No hinduísmo* temos a “ahimsa” que corresponde à com-paixão budista. É a atitude de não-violência, pela qual se procura evitar qualquer sofrimento ou constrangimento a outros seres. Muitos textos sagrados hindus ensinam a tratar todos os seres com o mesmo cuidado e a mesma reverência com que tratamos nossas crianças. Gandhi foi o gênio moderno da “ahimsa”.

A tradição do Tao conhece um conceito semelhante, o “wu wei”. Trata-se de uma virtude ativa: harmonizar-se com a medida de cada coisa, deixar ser e não interferir. Ao renunciar às coisas, lutando contra nossa vontade de possuir, exercemos o “wu wei”, quer dizer, entramos em comunhão com as coisas, captamos sua dança e juntos dançamos.

O     judeo-cristianismo conhece a “rahamim”, a misericórdia. Em hebraico “rahamim” significa ter entranhas e com elas sentir a realidade do outro, especialmente de quem sofre. Significa portanto, consentir mais do que entender e mostrar capacidade de identificação e com-paixão com o outro. A misericórdia é considerada a característica básica da experiência espiritual de Jesus de Nazaré. Ele experimentou e anunciou um Deus Pai cuja misericórdia não tem limites: “dá o sol e a chuva a justos e injustos” e não deixa de “amar os ingratos e maus”. Ele é o Deus misericordioso com o filho pródigo, com a ovelha tresmalhada, com a pecadora pública. É um Pai com características de Mãe. Ele mesmo mostra misericórdia com aqueles que o levaram à cruz.

O     salmo 103 expressa muito bem a centralidade divina da misericórdia: “O Senhor é rico em misericórdia, não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre; como um pai sente compaixão pelos filhos e filhas porque Ele conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó; a misericórdia do Senhor é desde sempre para sempre” (versículos 8-17).

No momento supremo, quando tudo se decidir, seremos julgados pelo mínimo de com-paixão e de misericórdia que tivermos tido com os famintos, os sedentos, os nus e os encarcerados (Mateus 25,36-41). Esse critério da com-paixão é idêntico entre cristãos, egípcios e tibetanos, amplamente retratado nos seus respectivos livros sagrados.

Concluindo: essas ressonâncias, entre outras, são eco do cuidado essencial. Trata-se de vozes diferentes cantando a mesma cantilena. É o amor, a justa medida, a ternura, a carícia, a cordialidade, a convivialidade e a compaixão que garantem a humanidade dos seres humanos. Através desses modos-de-ser, os humanos continuamente realizam sua autopoiese*, vale dizer, sua autoconstrução histórica. Simultaneamente constroem a Terra e preservam as tribos da Terra com suas culturas, seus valores, seus sonhos e suas tradições espirituais.

 

LEONARDO BOFF - In: "Saber cuidar"- Editora Vozes


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