O cuidado como modo-de-ser
perpassa toda existência humana e possui ressonâncias em diversas atitudes
importantes. Através dele as dimensões de céu (transcendência) e as dimensões
de terra (imanência) buscam seu equilíbrio e co-existência. Realiza-se também
no reino dos seres vivos, pois toda vida precisa de cuidado, caso contrário
adoece e morre. Basta citar o exemplo do Tucunaré, um de nossos peixes mais
apreciados. Pai e mãe têm imenso cuidado com seus filhotes (alevinos). Fazem o
ninho escavando um buraco no fundo do rio e circulam sempre ao redor para protegê-los.
Quando ensaiam sair do ninho, os acompanham com cuidado e os alertam contra a
dispersão. Ao mínimo risco os filhotes voltam todos juntos ao ninho guiados
pelos pais. Os retardatários são recolhidos cuidadosamente dentro da boca dos
pais e devolvidos ao grupo.
Vamos
inventariar algumas das muitas ressonâncias do cuidado. Trata-se de conceitos
afins que se desentranham do cuidado e o traduzem em distintas concreções.
Privilegiamos estas sete: o amor como fenômeno biológico, a justa medida, a
ternura, a carícia, a cordialidade, a convivialidade e a compaixão.
Poder-se-ia acrescentar ainda a sinergia, a hospitalidade, a cortesia e a
gentileza. Mas elas estarão implícitas nas que abordaremos.
1.
O amor como fenômeno biológico
Amor
é uma das palavras mais desgastadas de nossa linguagem. E como fenômeno
inter-pessoal, um dos mais desmoralizados. Abordaremos o tema do amor na ótica
fecunda de um dos maiores biólogos contemporâneos, o chileno Humberto Maturana.
Em suas reflexões o amor é contemplado como um fenômeno biológico. Ele se dá
dentro do dinamismo da vida, desde as suas realizações mais primárias, de
bilhões e bilhões de anos atrás, até as mais complexas no nível humano.
Vejamos como se introduz o amor no universo.
Na
natureza se verificam dois tipos de acoplamentos dos seres com seu meio, um
necessário e outro espontâneo. O primeiro, o necessário, faz com que todos os
seres estejam interconectados uns aos outros e acoplados aos respectivos
ecossistemas* como garantia para a sobrevivência. Mas há um outro acoplamento
que se realiza espontaneamente. Os seres interagem
sem razões de sobrevivência, por puro prazer, no fluir de seu viver.
Trata-se de encaixes dinâmicos e recíprocos entre os seres vivos e os sistemas
orgânicos. Não há justificativas para eles. Acontecem porque acontecem. É um
evento original da vida em sua pura gratuidade.
Quando
um acolhe o outro e assim se realiza a co-existência surge o amor como fenômeno
biológico. Ele tende a expandir-se e a ganhar formas mais complexas. Uma destas
formas é a humana. Ela é mais que simplesmente espontânea como nos demais
seres vivos; é feita projeto da liberdade que acolhe conscientemente o outro e
cria condições para que o amor se instaure como o mais alto valor da vida.
Nessa
deriva surge o amor ampliado que é a socialização. O amor é o fundamento do
fenômeno social e não uma conseqüência dele. Em outras palavras, é o amor
que dá origem à sociedade; a sociedade existe porque existe o amor e não ao
contrário, como convencionalmente se acredita. Se falta o amor (o fundamento)
destrói-se o social. Se, não obstante, o social persistir, ganha a forma de
agregação forçada, de dominação e de violência de uns contra os outros,
coagidos a encaixar-se. Por isso sempre que se destrói o encaixe e a congruência
entre os seres, destrói-se o amor e, com isso, a sociabilidade. O amor é
sempre uma abertura ao outro e uma con-vivência e co-munhão com o outro.
Não
foi a luta pela sobrevivência do mais forte que garantiu a persistência da
vida e dos indivíduos até os dias de hoje, mas a cooperação e a co-existência
entre eles. Os hominídeos*, de milhões de anos atrás, passaram a ser humanos
na medida em que mais e mais partilhavam entre si os resultados da coleta e da
caça e compartilhavam seus afetos. A própria linguagem que caracteriza o ser
humano surgiu no interior deste dinamismo de amor e de partilha.
A
competição, enfatiza Maturana, é anti-social, hoje e outrora, porque implica
a negação do outro, a recusa da partilha e do amor. A sociedade moderna
neoliberal, especialmente o mercado, se assenta na competição. Por isso é
excludente, inumana e faz tantas vítimas. Essa lógica impede que seja
portadora de felicidade e de futuro para a humanidade e para a Terra.
Como
se caracteriza o amor humano? Responde Maturana: “o que é especialmente
humano no amor não é o amor, mas o que fazemos no amor enquanto humanos...; é
a nossa maneira particular de viver juntos como seres sociais na linguagem...;
sem amor nós não somos seres sociais”.
O
amor é um fenômeno cósmico e biológico. Ao chegar ao nível humano, ele se
revela como a grande força de agregação, de simpatia, de solidariedade. As
pessoas se unem e recriam pela linguagem amorosa o sentimento de benquerença e
de pertença a um mesmo destino e a uma mesma caminhada histórica.
Sem
o cuidado essencial, o encaixe do amor não ocorre, não se conserva, não se
expande nem permite a consorciação entre os seres. Sem o cuidado não há
atmosfera que propicie o florescimento daquilo que verdadeiramente humaniza: o
sentimento profundo, a vontade de partilha e a busca do amor.
2.
A regra de ouro: a justa medida
No
capítulo anterior nos confrontamos com a questão da justa medida entre o
modo-de-ser-trabalho e o modo-de-ser-cuidado. Havíamos constatado o profundo
desequilíbrio da cultura mundializada sob a ditadura do modo-de-ser-trabalho. A
questão é: quanto de cuidado devemos incorporar para resgatar o equilíbrio
perdido? Eis uma questão fundamental para a teoria e a prática.
Façamos
uma primeira constatação: o sentido da medida é encontrado em muitos campos
que vão da geometria à religião. Mas é especialmente no campo da ética que
a justa medida assume uma importância axial. Trata-se de encontrar o ótimo
relativo, o equilíbrio entre o mais e o menos.
Por
um lado, a medida é sentida negativamente como limite às nossas pretensões.
Daí nasce a vontade e até o prazer de ultrapassar o limite e de violar o
proibido. Por outro, é sentida positivamente como a capacidade de usar, de
forma moderada, potencialidades naturais, sociais e pessoais para que mais
possam durar e reproduzir-se. Isso só é possível quando se estabelece um
certo equilíbrio e uma justa medida. A justa medida se alcança pelo
reconhecimento realista, pela aceitação humilde e pela ótima utilização dos
limites, conferindo sustentabilidade a todos os fenômenos e processos, à
Terra, às sociedades e às pessoas.
Especialmente
forte é esta busca nas culturas da bacia mediterrânea, particularmente entre
os egípcios, gregos latinos e hebreus. Diz-se até que é o espaço da cultura
da medida e também da desmedida porque lá foram elaboradas as ideologias mais
excessivas e as guerras sem qualquer contenção. Essa busca é preocupação
central no budismo e na filosofia ecológica do Feng-shui chinês. Para todas o
símbolo era a balança e
as respectivas divindades femininas, tutoras do equilíbrio.
A
busca da medida está cercada de questões espinhosas que não devem ser
escamoteadas como:
-
qual é a medida justa?
-
quem estabelece a medida justa?
-
a partir de que fontes de conhecimento se estabelece a medida justa?
-
a medida não depende sempre das culturas, das situações históricas
diferentes, da subjetividade humana pessoal e coletiva?
-
quem é responsável pela observância da medida justa estabelecida?
Não
pretendemos responder a cada uma dessas questões. Isso nos levaria longe. Mas
tentaremos uma reflexão que minimamente as englobe.
Muitos
foram os caminhos seguidos para fundar uma justa medida. Geralmente se apoiavam
numa única pilastra: ou deriva somente da natureza; ou somente da razão
universal; ou unicamente das ciências empíricas; ou somente da sabedoria dos
povos; ou unicamente das religiões; ou somente da revelação divina contida
nos textos sagrados da tradição judaico-cristã, dos Upanishad*, do taoísmo*.
Hoje
mais e mais estamos convencidos de que nada pode ser reduzido a uma única causa
(monocausalidade) ou a um único fator Pois :nada é linear e simples. Tudo é
complexo e vem urdido de inter-retro-relações e de redes de inclusões. Por
isso precisamos articular aquelas várias pilastras. Elas sustentam uma ponte
que poderá levar-nos a soluções mais integradoras. Pois todas elas trazem
alguma luz e comunicam alguma verdade. Sabedoria é ver cada porção dentro de
um todo articulado qual bela figura de mosaico composta de milhares de pastilhas
e deslumbrante bordado feito de mil fios coloridos.
a) Medida
justa e natureza
Por
natureza entendemos o conjunto dos seres orgânicos e inorgânicos, as energias
e os campos energéticos e morfogenéticos que existem organizados em sistemas
dentro de outros sistemas maiores, sejam ou não afetados pela intervenção
humana, constituindo um todo orgânico, dinâmico e em busca de um equilíbrio.
O ser humano é parte e parcela da natureza e entretém com ela uma sofisticada
rede de relações, fazendo com que ele co-pilote o processo de evolução junto
com as forças diretivas da Terra.
A
natureza é uma realidade tão complexa e vasta que não pode ser apanhada por
nenhuma definição. O que é a natureza em si permanece um mistério, como mistério
é o ser e o nada. O que possuímos são discursos culturais sobre a natureza:
dos antigos, do hinduísmo* na Índia, do taoísmo* na China, do zen-budismo* no
Japão, da moderna ciência copernicana, da mecânica quântica, da teoria dos
sistemas abertos, da biologia genética e molecular, da nova cosmologia baseada
nas ciências da Terra. Nossa compreensão muito deve a estas tradições,
especialmente à última vertente. Em função de cada compreensão decide-se
que tipo de natureza deve ser preservada.
Quando
contemplamos a natureza, a despeito das expressões caóticas e da intrincadíssima
complexidade, salta logo aos olhos uma medida imanente que resulta não das
partes tomadas isoladamente, mas do todo orgânico e vivo. Há harmonia e equilíbrio.
Ela não é biocentrada, centrada só na vida, mas no equilíbrio dinâmico
entre vida e morte.
Para
os contemporâneos a natureza resulta de um imenso processo de evolução que
vai além do modelo de Charles Darwin (1809-1882) que fundamentalmente a
restringia à biosfera. A compreensão atual -
chamada de teoria da evolução sintética - entende a evolução como
uma teoria universal: a partir do big bang
tudo no universo está em evolução. Esse processo não é linear mas dá
saltos, conhece flutuações* e bifurcações. Não só se expande mas cria
possibilidades sovas. Significa que as leis naturais não possuem caráter
determinístico mas probabilístico.
Os
conhecimentos da termodinânica* nos sinalizam que a vida e qualquer novidade no
universo surge a partir de certa distância e de certa ruptura do equilíbrio.
Essa ausência de medida, embora momentânea, provoca a auto-organização (autopoiese*)
que cria uma nova estabilidade e um novo equilíbrio dinâmico. É dinâmico
porque continuamente se refaz, não pela reprodução do equilíbrio anterior,
mas pela criação de um novo, mediante o diálogo com o meio e uma nova adaptação.
A lógica da natureza em processo evolutivo é esta: organização - quebra do
equilíbrio – desorganização - nova relação - novo equilíbrio - nova
organização. E assim permanentemente.
Não
significa que a natureza não possua uma medida (leis da natureza); ela possui
uma medida não estática e mecânica, mas dinâmica e flutuante, caracterizada
por constâncias e variações. Há fases de :ruptura para logo em seguida
gestar nova regularidade. O clima da Terra por exemplo, que já tem 3,8 bilhões
de anos, passou por turbulências e terríveis devastações. A Terra já foi
quase duas vezes mais quente que hoje, mas apesar disso, mostrou ao longo do
tempo bilionário um incrível equilíbrio dinâmico que tem favorecido
benevolamente todas as formas de vida.
A
natureza vista como um todo não impõe prescrições. Aponta para tendências e
regularidades que podem ir em várias direções. Cabe ao ser humano desenvolver
uma sensibilidade tal que lhe pertinta captar essas tendências e tomar suas
decisões. A natureza não o dispensa de decidir e de exercer a sua liberdade. Só
então ele se mostra um ser ético.
Esse
espaço de intervenção e criação do ser humano consciente e responsável é
um dado da natureza. Assim como ela continuamente busca, faz e refaz
dinamicamente uma medida, da mesma forma deve o ser humano buscar a justa
medida. Não de uma vez por todas, mas sempre em atenção ao que está
ocorrendo na natureza, na história e nele mesmo. A medida justa muda. O que não
muda, é a permanente busca da justa medida.
Há
de se considerar ainda o processo global que mostra uma seta do tempo apontando
sempre para frente e para cima, processo que quanto mais avança, menos se
auto-copia, menos clonagens faz e mais diversidades apresenta. As medidas
variam, mas cada medida encontrada serve a um propósito superior de levar mais
avante a seta da evolução.
h)
Medida justa e pathos
Como
o ser humano capta essa medida multidimensional da natureza? Não basta o saber
racional, nem a vontade obediente de identificar regularidades, dispensando a
criatividade humana e o exercício da liberdade, próprias do ser humano.
Importa desenvolver uma atitude atenta de escuta, um sentimento profundo de
identificação com a natureza, com suas mudanças e estabilidades. O ser humano
precisa sentir-se natureza. Quanto mais mergulha nela, mais sente quando deve
mudar e quando deve conservar em sua vida e em suas relações.
Os
povos indígenas nos dão o melhor exemplo de como escutar a natureza. Por uma
afinidade profunda com ela, com os solos, as chuvas, as nuvens, os ventos, as águas,
as plantas e os animais sabem, de golpe, o que vai acontecer e que atitude
tomar. Estão tão unidos à Terra como seus filhos e filhas, como a própria
Terra falante e pensante, que captam, imediatamente, o que vai ocorrer na
natureza. Ou melhor, a natureza fala com eles e por eles.
Investigações
feitas em grandes centros metropolitanos europeus e norte-americanos constataram
que um aumento de conhecimentos acerca da crise ecológica e das feridas da
Terra não leva necessariamente a uma transformação nas atitudes de mais
respeito e de mais veneração para com ela. O que é imprescindível não é o
saber, afirmam, mas o sentir. Quanto mais uma pessoa sofre com a degradação do
meio ambiente, se indigna com o sofrimento dos animais e se revolta contra a
destruição da mancha verde da Terra, mais desenvolve novas atitudes de compaixão,
de enternecimento, de proteção da natureza e uma espiritualidade cósmica.
Novamente
encontramos aqui o pathos*, sentimento
profundo, na raiz do novo paradigma de convivência com a Terra. Dessa ausculta
da Terra e da paixão por ela, nasce o cuidado essencial. Sem essa escuta
cuidadosa não ouviremos a grande voz da Terra a convidar-nos para a sinergia*,
a compaixão, a co-existência pacífica com todos os seres.
Essa
atitude é exigida, por exemplo, no âmbito da biotecnologia, um dos campos mais
avançados da ciência. Qual a justa medida na intervenção no código genético
humano? Ela não se encontra escrita em nenhum lugar. O ser humano precisa
estabelecê-la a partir de uma profunda sensibilidade e comunhão com a própria
vida. Se ele entrar no seu laboratório de experimentação genética como quem
entra num templo e operar os processos como quem faz uma liturgia – pois a
vida é misteriosa e sagrada e demanda tais atitudes de reverência - sentirá,
mais do que simplesmente saberá, o que pode ou não fazer. É o sentir
carregado de cuidado, de responsabilidade e de compaixão. A partir desse pathos* se torna
absurdo querer subordinar o novo conhecimento genético à obtenção de lucros,
como se a vida fosse uma simples mercadoria colocada no balcão de compras e
vendas.
A
atitude de sentir com cuidado deve transformar-se em cultura e demanda um
processo pedagógico para além da escola formal que atravessa as instituições
e faz surgir um novo estado de consciência e de conexão com a Terra e com tudo
o que nela existe e vive.
Como
reza tão bem o salmo (119,19), sentimo-nos “hóspedes nesta Terra”, hóspedes
respeitosos do hospedeiro Terra. E deixamos a Casa Comum sempre em ordem para
outros hóspedes que vierem depois de nós.
3.
A ternura vital
A
ternura vital é sinônimo de cuidado essencial. A ternura é o afeto que
devotamos às pessoas e o cuidado que aplicamos às situações existenciais. E
um conhecimento que vai além da razão, pois mostra-se como inteligência que
intui, vê fundo e estabelece comunhão. A ternura é o cuidado sem obsessão:
inclui também o trabalho, não como mera produção utilitária, mas como obra
que expressa a criatividade e a auto-realização da pessoa. Ela não é efeminação
e renúncia de rigor no conhecimento. É um afeto que, à sua maneira, também
conhece. Na verdade só conhecemos bem quando nutrimos afeto e nos sentimos
envolvidos com aquilo que queremos conhecer A ternura pode e deve conviver com o
extremo empenho por uma causa, como foi exemplarmente demonstrado pelo
revolucionário absoluto Che Guevara (1928-1968). Dele
guardamos a sentença inspiradora: “hay que endurecer pero sin perder la
ternura jamás”.
A
ternura emerge do próprio ato de existir no mundo com os outros. Não
existimos, co-existimos, con-vivemos e co-mungamos com as realidades mais
imediatas. Sentimos nossa ligação fundamental como a totalidade do mundo. Esse
sentimento é mais do que uma moção psicológica, é um modo de ser
existencial que perpassa todo o ser. A concentração no sentimento gera o
sentimentalismo. O sentimentalismo é um produto da subjetividade mal integrada.
É o sujeito que se dobra sobre si mesmo e
celebra as suas sensações. Ao contrário, a ternura irrompe quando o
sujeito se descentra de si mesmo, sai na direção do outro, sente o outro como
outro, participa de sua existência, deixa-se tocar pela sua história de vida.
O outro marca o sujeito. Este demora-se no outro não pelas sensações que lhe
produz, mas por amor, pelo apreço de sua diferença e pela valorização de sua
vida e luta.
A
relação de ternura não envolve angústia porque é livre de busca de
vantagens e de dominação. O enternecimento é a força própria do coração,
é o desejo profundo de compartir caminhos. A angústia do outro é minha angústia,
seu sucesso é meu sucesso e sua salvação ou perdição é minha salvação e
perdição, não só minha mas de todos os seres humanos.
Blaise
Pascal (1623-1662), filósofo e matemático francês do século XVII, introduziu
uma distinção importante para nos ajudar a entender o cuidado e a ternura: o esprit
de finesse e o esprit de géometrie.
O
esprit de finesse é o espírito de
finura, de sensibilidade, de cuidado e
de ternura. O espírito não só
pensa e raciocina. Vai além e acrescenta sensibilidade, intuição e capacidade
de união ao raciocínio e ao pensamento. Do espírito de finura nasce o mundo
das excelências, das grandes significações, dos valores e dos compromissos
para os quais vale dispender energias e tempo.
O
esprit de géometrie é o espírito
calculatório e obreirista, interessado na eficácia e no poder. É o
modo-de-ser que imperou na modernidade. Ele colocou num canto, sob muitas
suspeitas, tudo o que tem a ver com o afeto, o enternecimento e o cuidado
essencial. Daí deriva também o vazio aterrador de nossa cultura “geométrica”
com sua pletora de sensações mas sem experiências profundas; com um acúmulo
fantástico de saber mas com parca sabedoria, com demasiado vigor da musculação,
do sexualismo, dos artefatos de destruição mostrados nos serial
killer mas sem ternura e cuidado para com a Terra, para com seus filhos e
filhas, para com o futuro comum de todos.
4.
A carícia essencial
A
carícia constitui uma das expressões máximas do cuidado. Por que dizemos carícia
essencial? Porque queremos distingui-la da carícia como pura excitação psicológica,
em função de uma benquerença fugaz e sem história. A carícia-excitação não
envolve o todo da pessoa. A carícia é essencial quando se transforma numa
atitude, num modo de ser que qualifica a pessoa em sua totalidade, na psique, no
pensamento, na vontade, na interioridade, nas relações que estabelece.
O
órgão da carícia é, fundamentalmente, a mão: a mão que toca, a mão
que afaga, a mão que estabelece relação, a mão que acalenta, a mão que traz
quietude. Mas a mão não é simplesmente mão. É a pessoa humana que através
da mão e na mão revela um modo-de-ser carinhoso. A carícia toca o profundo do
ser humano, lá onde se situa seu centro pessoal. Para que a carícia seja
verdadeiramente essencial precisamos afagar o eu profundo e não apenas o ego
superficial da consciência.
A
carícia que nasce do centro confere repouso, integração e confiança. Daí o
sentido do afago. Ao acariciar a criança, a mãe lhe comunica a experiência
mais orientadora que existe: a confiança fundamental na bondade da realidade e
do universo; a confiança de que, no fundo, tudo tem sentido; a confiança de
que a paz e não o conflito é a palavra derradeira; a confiança na acolhida e
não na exclusão do grande Útero.
Como
a ternura, a carícia exige total altruísmo, respeito pelo outro e renúncia a
qualquer outra intenção que não seja a da experiência de querer bem e
de amar. Não é um roçar de peles, mas um investimento de carinho e de
amor através da mão e da pele.
O
afeto não existe sem a carícia, a ternura e
o cuidado. Assim como a estrela precisa de aura para brilhar, assim o afeto
precisa da carícia para sobreviver. É a carícia da pele, do cabelo, das mãos,
do rosto, dos ombros, da intimidade sexual que confere concretitude ao afeto e
ao amor. É a qualidade da carícia que impede o ato de ser mentiroso, falso ou
dúbio. A carícia essencial é leve como um
entreabrir suave da porta. Jamais há carícia na violência de arrombar
portas e janelas, quer dizer, na invasão da intimidade da pessoa.
Disse
com precisão o psiquiatra colombiano Luís Carlos Restrepo: “A mão, órgão
humano por excelência, serve tanto para acariciar como para agarrar. Mão que
agarra e mão que acaricia são duas facetas extremas das possibilidades de
encontro inter-humano”. No contexto de nossa reflexão, a mão que agarra
corporifica o modo-de-ser-trabalho. Agarrar é expressão do poder sobre, da
manipulação, do enquadramento do outro ou das coisas ao meu modo de ser. A mão
que acaricia representa o modo-de-ser-cuidado, pois “a carícia é uma mão
revestida de paciência que toca sem ferir e solta para permitir a mobilidade do
ser com quem entramos em contacto”.
5.
A cordialidade fundamental
A
justa medida, a ternura vital, a carícia essencial e a cordialidade fundamental
são qualidades existenciais, quer dizer, formas de estruturação do ser humano
naquilo que o faz humano. O cuidado, com a corte de suas ressonâncias, é o
artesão de nossa humanidade. Isso vale também para a cordialidade, tão mal
interpretada na cultura brasileira desde que foi introduzida como categoria de
análise sociológica no final dos anos 30.
Normalmente
ela é tomada como expressão da emotividade no sentido psicológico, em
contraposição à racionalidade. Diz-se que o brasileiro é cordial. E o é de
fato. Coloca nas coisas mais coração que lógica. Mas cuidado! O coração-emotividade
pode produzir tanto o fino trato, o senso da hospitalidade, a exuberância
contida do prazer, como os rompantes de violência e
os ódios profundos característicos de certas famílias do Nordeste
canavieiro. Essas contradições se mostram mais nas elites nacionais do que
nas camadas populares, pois elas historicamente “caparam e recaparam,
sangraram e ressangraram o povo brasileiro” (Capistrano de Abreu).
Quando
falamos de cordialidade como ressonância do cuidado pensamos em outra direção.
Vemos o coração como uma dimensão do espírito de finura, como capacidade de
captar a dimensão de valor presente nas pessoas e nas coisas. O decisivo não são
os fatos. Mas o que os fatos produzem de significações em nós,
enriquecendo-nos e transformando-nos. Aqui surge a dimensão de valor, daquilo
que conta, pesa e definitivamente nos interessa. O valor transforma os fatos em
símbolos e em sacramentos. Deixam de ser fatos simplesmente ocorridos e
passados, mas se tornam portadores de evocação, de significação e de memória.
Ora
é próprio do coração captar a dimensão axiológica, valorativa do Ser em
sua totalidade e em suas manifestações nos entes concretos. Cordialidade
significa então aquele modo de ser que descobre um coração palpitando em cada
coisa, em cada pedra, em cada estrela e em cada pessoa. É aquela atitude tão
bem retratada pelo Pequeno Príncipe: “só se vê bem com o coração”. O
coração consegue ver além dos fatos; vê seu encadeamento com a totalidade;
discerne significações e descobre valores. A cordialidade supõe a capacidade
de sentir o coração do outro e o coração secreto de todas as coisas. A
pessoa cordial ausculta, cola o ouvido à realidade, presta atenção e põe
cuidado em todas as coisas.
Na
América Latina, foi a cultura náhuatl dos astecas do México que conferiu
especial significação ao coração. A definição de ser humano não é, como
entre nós, a de um animal racional, mas a de “dono de um rosto e de um coração”.
O rosto identifica e distingue o ser humano de outros seres humanos. Pelo rosto
o ser humano se relaciona eticamente com o outro. No rosto fica estampado se o
acolhemos, se dele desconfiamos, se o excluímos. O coração, por sua vez,
define o modo-de-ser e o caráter da pessoa, o princípio vital donde provêm
todas as suas ações.
A
educação refinada dos astecas, conservada em belíssimos textos, visava formar
nos jovens um rosto claro, bondoso e sem sombras, aliado a um coração firme e
caloroso, determinado e hospitaleiro, solidário e respeitoso das coisas
sagradas. Segundo eles, era do coração que nascia a religião que utilizava
“a flor e o canto” para venerar suas divindades. Colocavam coração em
todas as coisas que faziam. Essa cor-dialidade passava às obras de arte que
criavam. O grande pintor renascentista alemão, Albrecht Dürer, ao contemplar,
em 1520, objetos de arte astecas doados ao imperador Carlos V por Hernan Cortés,
deixou consignado em seu diário este testemunho: “Em toda a minha vida não
vi nada que haja alegrado tanto meu coração como estas coisas. Nelas encontrei
objetos maravilhosamente artísticos e me admirei da genialidade sutil dos
homens destas terras estranhas”. Era a ressonância do cuidado e da compaixão
expressando-se nos objetos de arte astecas.
6.
A convivialidade necessária
Acolitando
a cordialidade, vem a convivialidade. A convivialidade, como conceito, foi posta
em circulação por Ivan Illich, um dos grandes profetas latino-americanos.
Nascido em Viena em 1926, trabalhou na América Latina ou com os latinos nos
EUA. Através da convivialidade, tentou responder a duas crises da atualidade,
intimamente interligadas: a crise do processo industrialista e a crise ecológica.
Vejamos
em primeiro lugar a crise do processo industrialista. A relação do ser humano
sobre o instrumento se tomou uma relação do instrumento sobre o ser humano.
Criado para substituir o escravo, o instrumento tecnológico acabou por
escravizar o ser humano ao visar a produção em massa. Fez surgir uma sociedade
de aparatos, mas sem alma. A produção industrial vigente não combina com a
fantasia e a criatividade dos trabalhadores. Deles só quer utilizar a força de
trabalho, muscular ou intelectual. Quando incentiva a criatividade, é em vista
da qualidade total do produto que beneficia mais a empresa do que o trabalhador.
Entretanto,
constitui um sinal dos tempos o fato de muitos empresários tomarem consciência
desta distorção e se confrontarem diretamente com a desumanização da
sociedade industrial. Muitos começam a colocar na agenda da empresa a discussão
sobre o novo paradigma da re-ligação, a subjetividade, a espiritualidade e as
relações de cooperação e de sinergia entre todos, empresários e
trabalhadores.
O
que se entende por convivialidade? Entende-se a capacidade de fazer conviver as
dimensões de produção e de cuidado, de efetividade e de compaixão; a
modelagem cuidadosa de tudo o que produzimos, usando a criatividade, a liberdade
e a fantasia; a aptidão para manter o equilíbrio multidimensional entre a
sociedade e a natureza, reforçando o sentido de mútua pertença.
A
convivialidade visa combinar o valor técnico da produção material com o valor
ético da produção social e espiritual. Depois de termos elaborado a economia
dos bens materiais, importa desenvolver, urgentemente, a economia das qualidades
humanas. O grande capital, infinito e inesgotável, não é porventura o ser
humano?
Os
valores humanos da sensibilidade, do cuidado, da convivialidade e da veneração
podem impor limites à voracidade do poder-dominação e à produção-exploração.
Em
segundo lugar, convivialidade se entende como uma derradeira resposta à crise
ecológica, produzida pelo processo industrialista dos últimos quatro séculos.
O processo irresponsável de depredação do ambiente pode provocar uma dramática
devastação do sistema-Terra e de todas as organizações que o gerenciam.
Esse
cenário não é de forma nenhuma improvável. Ele ocorreu antes, com a
derrocada da bolsa de Wall Street em 1929. Naquela ocasião era apenas uma crise
parcial do sistema capitalista. Agora se trata de uma crise do sistema global.
Num contexto de ruptura generalizada, a primeira reação do sistema imperante
será certamente aumentar o controle planetário e usar violência massiva para
garantir a manutenção do processo produtivo e do sistema financeiro. Tal diligência,
em vez de aliviar a crise, a radicalizará por causa do crescimento do
desemprego tecnológico e da ineficácia das políticas de integração das vítimas
dentro da única sociedade mundial.
Segundo
Illich, a crise pode transformar-se em catástrofe de dimensões apocalípticas.
Mas pode ser também uma chance única para definir um uso convivial dos
instrumentos tecnológicos a serviço da preservação do planeta, do bem-estar
da humanidade e da cooperação entre os povos.
Para
se chegar a esse novo patamar, provavelmente a humanidade deverá passar por uma
sexta-feira santa sinistra, que precipitará no abismo a ditadura do
modo-de-ser-trabalho-produção-material. Só então poderá haver um domingo de
ressurreição, a reconstrução da sociedade mundial sobre a base do cuidado.
O
primeiro parágrafo do novo pacto social entre os povos sobreviventes definirá
o estabelecimento sagrado da auto-limitação e a obrigação de viver sob
ajusta medida, no cuidado para com a herança que recebemos do universo, na
ternura essencial para com os humanos e no respeito pelos outros seres da criação.
A produção será convivial, pois garantirá o suficiente para atender as
necessidades humanas e o adequado para realizar projetos solidários. O ser
humano terá aprendido a usar os instrumentos tecnológicos como meios e não
como fins; terá aprendido a con-viver com todas as coisas como seus irmãos e
irmãs, sabendo tratá-las com reverência e respeito.
Quando
esse evento bem-aventurado ocorrer, ter-se-á inaugurado o novo milênio como a
vigência de um novo paradigma de civilização, mais propício à vida, na
justiça e na fraternura entre todos.
7.
A compaixão radical
Esta
última irradiação do cuidado -
a compaixão radical -
representa a contribuição maior que o budismo ofereceu à humanidade.
Ela é considerada a virtude pessoal de Buda, cujo nome real era Siddharta
Gautama que viveu entre o VI-V século antes de nossa era. A compaixão se
insere dentro da experiência básica do budismo, articulando dois movimentos
diferentes mas complementares: o desapego total do mundo, mediante a ascese e o
cuidado com o mundo, mediante a compaixão. Pelo desapego, o ser humano se
liberta da escravidão do desejo de posse e de acumulação. Pelo cuidado, se
re-liga ao mundo afetivamente, responsabilizando-se por ele.
A
com-paixão não é um sentimento menor de “piedade” para com quem sofre. Não
é passiva mas altamente ativa. Com-paixão, como a filologia latina da palavra
o sugere, é a capacidade de compartilhar a paixão do outro e com o outro.
Trata-se de sair de seu próprio círculo e entrar na galáxia do outro enquanto
outro para sofrer com ele, alegrar-se com ele, caminhar junto com ele e
construir a vida em sinergia com ele.
Em
primeiro lugar, essa atitude leva à renúncia de dominar e, no limite, de matar
qualquer ser vivo, recusando toda violência contra a natureza. Em segundo
lugar, procura construir a comunhão a partir dos que mais sofrem e mais são
penalizados. Somente começando pelos últimos é que se abre a porta para uma
sociedade realmente integradora e includente. A filosofia chinesa do Feng-shui*,
como veremos, propõe uma forma cuidadosa de tratar a natureza e de organizar
ecologicamente os jardins e a casa humana.
No
hinduísmo* temos a “ahimsa” que corresponde à com-paixão budista. É a
atitude de não-violência, pela qual se procura evitar qualquer sofrimento ou
constrangimento a outros seres. Muitos textos sagrados hindus ensinam a tratar
todos os seres com o mesmo cuidado e a mesma reverência com que tratamos nossas
crianças. Gandhi foi o gênio moderno da “ahimsa”.
A
tradição do Tao conhece um conceito semelhante, o “wu wei”. Trata-se de
uma virtude ativa: harmonizar-se com a medida de cada coisa, deixar ser e não
interferir. Ao renunciar às coisas, lutando contra nossa vontade de possuir,
exercemos o “wu wei”, quer dizer, entramos em comunhão com as coisas,
captamos sua dança e juntos dançamos.
O
judeo-cristianismo conhece a “rahamim”, a misericórdia. Em hebraico
“rahamim” significa ter entranhas e com elas sentir a realidade do outro,
especialmente de quem sofre. Significa portanto, consentir mais do que entender
e mostrar capacidade de identificação e com-paixão com o outro. A misericórdia
é considerada a característica básica da experiência espiritual de Jesus de
Nazaré. Ele experimentou e anunciou um Deus Pai cuja misericórdia não tem
limites: “dá o sol e a chuva a justos e injustos” e não deixa de “amar
os ingratos e maus”. Ele é o Deus misericordioso com o filho pródigo, com a
ovelha tresmalhada, com a pecadora pública. É um Pai com características de Mãe.
Ele mesmo mostra misericórdia com aqueles que o levaram à cruz.
O
salmo 103 expressa muito bem a centralidade divina da misericórdia: “O
Senhor é rico em misericórdia, não está sempre acusando nem guarda rancor
para sempre; como um pai sente compaixão pelos filhos e filhas porque Ele
conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó; a misericórdia do Senhor
é desde sempre para sempre” (versículos 8-17).
No
momento supremo, quando tudo se decidir, seremos julgados pelo mínimo de
com-paixão e de misericórdia que tivermos tido com os famintos, os sedentos,
os nus e os encarcerados (Mateus 25,36-41). Esse critério da com-paixão é idêntico
entre cristãos, egípcios e tibetanos, amplamente retratado nos seus
respectivos livros sagrados.
Concluindo: essas ressonâncias, entre outras, são eco do cuidado essencial. Trata-se de vozes diferentes cantando a mesma cantilena. É o amor, a justa medida, a ternura, a carícia, a cordialidade, a convivialidade e a compaixão que garantem a humanidade dos seres humanos. Através desses modos-de-ser, os humanos continuamente realizam sua autopoiese*, vale dizer, sua autoconstrução histórica. Simultaneamente constroem a Terra e preservam as tribos da Terra com suas culturas, seus valores, seus sonhos e suas tradições espirituais.
LEONARDO BOFF - In: "Saber cuidar"- Editora Vozes