A morte voluntária

 

Antônio Goulart - Jornalista

 

“Os que matam uma mulher e depois se suicidam deveriam mudar de sistema, suicidando-se antes e matando-a depois”. (Ramón Gómez de la Serna - 1888 - 1963)

 

Já não se cometem mais suicídios como antigamente. Os pactos de morte entre casais tornaram-se raros. Mais raro ainda, é o uso do veneno. Há alguns anos, o cronista Antônio Maria constatava que em Copacabana as pessoas se suicidavam sempre aos domingos. E indagava: por que o domingo é o dia dos suicidas? Talvez por ser um dia triste para as pessoas solitárias, foi a resposta que encontrou. Agora, parece não existirem mais preferências. Nossos suicidas abandonam o recato e o isolamento e vêm para a rua, cercados de testemunhas, ao meio-dia de um sábado de verão. A clássica tragédia de Romeu e Julieta é revivida, séculos depois, na rua Santana, em Porto Alegre, mas sem os contornos românticos moldados por Shakespeare, e sim de forma compulsória para uma das partes.

Mesmo assim, estas duas mortes não foram originais. Num detalhe, repetiu-se o que sempre acontece na grande maioria dos casos: não faltou o bilhete explicativo, previamente escrito. "Quando alguém estiver lendo estas palavras eu e a Liana já estaremos mortos". No dia 17 último, fez um ano de uma morte, no Rio, que alcançou repercussão nacional. Foi o suicídio do industrial Paulo Ferraz, presidente do estaleiro Mauá. Não se tratou de um caso de paixão, mas igualmente não dispensou o bilhete, iniciado com "BASTA! Não agüento mais a tensão!" Tudo isso vem dar razão à definição mais correta que alguém já encontrou para o tema, que é a  do poeta Jaime Ovalle: "O suicídio é um ato de publicidade; a publicidade do desespero". E sem comunicação não há publicidade. É preciso que se divulgue a razão do gesto definitivo.

A curta mensagem do ex-proprietário do estaleiro ressaltava ainda que "tudo me é demais" e a de Sérgio, o homem que matou e se matou na Santana, fala na "idéia de não suportar viver sem ela". Tudo no suicídio atinge ao mais alto grau, indo além dos limites do suportável, pelo menos no seu íntimo, no seu enfoque exclusivo de ver a realidade. Muitas vezes, o motivo, para quem está de fora, pode parecer até corriqueiro. Mas foi o escritor francês Pierre de la Rochele, também desaparecido pela via da morte voluntária, que observou, no seu "Fogo-Fátuo", que "o suicídio é o ato daqueles que não conseguiram realizar outros".

A não ser nas ocasiões de choque traumático fora do comum, o suicídio não costuma ser espontâneo ou impulsivo. É elaborado de detalhes, com escolha do meio, hora e local. Foi o que aconteceu com Paulo Ferraz e com o homem da rua Santana. Se para o primeiro, as dimensões do problema eram de tal vulto que,- digamos, faziam prever tal desfecho ou "justificavam" o ato extremo de que lançou mão, para o segundo, tudo ficou dentro do molde clássico, repetido, quase banal mas, ao mesmo tempo insondável, dos mistérios que cercam o mundo da paixão amorosa. Nem sempre, porém, as ciosas são claras e explicadas. A morte do escritor Pedro Nava, por exemplo, deixou a sensação de algo ilógico, de absurdo. Não foi por nada, aliás, que Albert Camus um dia escreveu que o suicídio é uma solução para o absurdo, no mesmo ensaio aberto pela sua frase mais citada: "só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o do suicídio".

 

O curioso é que este gesto nada mais é do que o cumprimento de uma espécie de "vocação" que algumas pessoas carregam, às vezes ao longo de anos, até que um dia a realizam plenamente, não sem antes emitir sinais de sua estranha "predestinação". Nos meus vinte anos, morando numa pensão, na Capital, tive como companheiro de quarto um rapaz inteligente mas extremamente revoltado com o tipo de vida que levava. Em várias oportunidades ele me revelara sintomas - embora sem falar abertamente - dessa misteriosa "vocação". Pois, numa noite de outono, saímos juntos. A certa hora, ele resolveu tomar outro rumo, sozinho, enquanto eu voltava para casa. Pela manhã, sua cama continuava arrumada. Mais tarde, recebi a informação: ele havia se jogado sob as rodas de um bonde, no bairro da Glória. O fato me deixou chocado, mas não de todo surpreso.

 

Um gesto como este, diz Camus, é preparado, como acontece com uma grande obra, no "silêncio do coração". O próprio homem o ignora, embora alguma preocupação o venha consumindo. A expressão-chave, segundo ainda o autor de "O Mito de Sísifo", é esta: "Começar a pensar é começar a ser consumido".

 

O Sérgio pediu para ser velado e enterrado junto com a namorada. Não sei se o desejo foi atendido. Só sei que Dante Alighieri, em sua "Divina Comédia”, colocou os suicidas no segundo recinto do sétimo circulo infernal, transformados em espécies de árvores, eternamente dilaceradas pelas harpias, monstros fabulosos, com rosto de mulher e corpo de ave de rapina.


 

Visão subjetiva do suicídio (responsabilidade da pessoa que se suicida ou tenta o suicídio)

 

Antigamente, como se desconheciam os complexos fatores que intervinham em um suicídio, exagerava-se a responsabilidade pessoal do suicídio, acreditando-se que sua ação correspondia a um plano pensado e executado com lucidez. Hoje, está suficientemente provado que, na grande maioria dos casos, o suicida apresenta uma percepção muito unilateral dos valores, devido a um processo seletivo condicionado. Esse fato é um sintoma de que a liberdade necessária para um ato humano está muito comprometida. Essa situação pode ver-se acentuada por processos emocionais, que limitam ainda mais a liberdade.

 

Ademais, a existência de uma responsabilidade subjetiva parece difícil quando se coloca o suicídio dentro de um processo, pois o suicida não vê que as decisões que vai tomando gradualmente podem desembocar em uma solução fatal.

 

Não se excluiu a possibilidade de certos suicídios serem decididos aparentemente com maior lucidez, como, por exemplo, os chamados suicídios “altruístas”, a pessoa que se suicida para não delatar companheiros, prevendo ser torturado com esse fim, a pessoa que se suicida como sinal de protesto diante de determinadas situações políticas, etc.

 

A moral não deve se preocupar muito em indagar as responsabilidades pessoais dos suicidas. É difícil, em qualquer ser humano, uma análise pessoal, sempre muito aleatória no caso do suicídio. Por isso, hoje se atende muito mais para as responsabilidades de uma ação preventiva de suicídio, tendo em vista diversas indicações. Deve-se levar a sério qualquer manifestação da intenção de suicídio, pois cerca de oitenta por cento acabam cumprindo seu propósito. Sendo o suicídio o final de um processo é possível conhecer a tempo quais as pessoas que podem ser consideradas “candidatas” ao suicídio, com certa probabilidade. Uma doença psíquica ou uma crise psíquica aguda podem facilmente desembocar no suicídio.

 

Ao que parece, a vivência religiosa exerce um importante efeito inibitório. O suicídio pode parecer uma saída sobretudo para aqueles que se sentem excluídos da comunidade.

 

 

Visão objetiva do suicídio (o suicídio em si mesmo)

 

 

Praticamente inexistem justificativas generalizadas para o suicídio. Mas, em casos de suicídios concretos, já foram, apresentadas justificativas como ato de coragem ou de obediência a Deus ou ainda como mal menor.

Segundo muitos autores, a filosofia não conseguiu apresentar uma argumentação válida e conclusiva que demonstre a imoralidade absoluta do suicídio. O máximo a que ela parece chegar é a conclusão de que o suicídio não é desejável eticamente, com base em uma perspectiva de prioridade ou preferências.

A auto-realização tem prioridade sobre a autodestruição

O suicídio corta radicalmente toda possibilidade de auto-realização.

As ações revogáveis tem prioridade sobre as não-revogáveis.

O suicida destrói irreparavelmente a sua criatividade, a possibilidade de colaborar para seu próprio desenvolvimento e para a construção social por meio de atos passíveis de revisão.

- A liberdade vivida por mais tempo e com maior intensidade tem preponderância sobre a liberdade prematuramente cortada. O homem é um ser que amadurece com o tempo: o suicídio acaba com esse processo de desenvolvimento.

Todos esses esforços filosóficos para criar uma base ética contra o suicídio não demonstram a sua imoralidade absoluta em qualquer situação.

Dentro do cristianismo e a partir de uma perspectiva religiosa, já se justificou a condenação absoluta do suicídio com base no mandamento de não matar. O "não matarás", tal como aparece na Bíblia, não apresenta qualquer referência em relação ao suicídio, muito embora posteriormente a tradição cristã tenha recorrido a essa proibição querendo incluir também o suicídio.

Santo Tomás e, com ele, outros autores basearam a imoralidade do suicídio em uma tripla razão:

"É absolutamente ilícito suicidar-se, por três razões. Primeira, porque todo ser se ama naturalmente a si mesmo; por esse motivo, o fato de alguém se matar é contrário à inclinação natural e à caridade, pela qual a pessoa deve amar-se a si mesmo; daí o suicídio ser sempre pecado mortal, por ir contra a lei natural e contra a caridade. Segundo, porque cada parte, enquanto tal, é, algo de um todo; um homem qualquer é parte da comunidade e, portanto, tudo o que ele é pertence à sociedade, logo quem se suicida atenta contra a comunidade, como indicou Aristóteles. Terceira, porque a vida é um dom dado ao homem por Deus e sujeito ao seu divino poder, que mata e faz viver; portanto, quem se priva da própria vida peca contra Deus.

O tema do suicídio remete a questão do domínio do homem sobre a própria vida.

 

Perspectivas histórico-religiosas

 

Historicamente a atitude da sociedade em relação ao suicídio variou da admiração à hostilidade, punição, irracionalismo e até superstição. As antigas lendas gregas descrevem o suicídio como bom e admirável. Os estóicos e epicureus viam o suicídio como uma solução aceitável para muitas situações intoleráveis de vida. Mais tarde os gregos e romanos condenaram o suicídio como uma ofensa política contra o Estado porque a comunidade perdia um membro útil. Havia também uma atitude de superstição que envolvia o suicídio, particularmente na Idade Média. Por exemplo dizia-se que se uma mulher grávida parasse no túmulo de um suicida a criança morreria de suicídio.

Através da história, a religião desempenhou um importante papel na formação de atitudes perante o suicídio. Biblicamente, nem o Antigo Testamento nem o Novo Testamento proíbem ou condenam o suicídio. Existem 6 exemplos de suicídio no Antigo Testamento e um no Novo (Judas).

Por vários séculos, a Igreja não teve uma posição específica sobre o assunto. De fato os primeiros cristãos suicidavam-se em grande número por razões religiosas. Santo Agostinho e mais tarde São Tomás de Aquino definiram a posição da Igreja, vendo o suicídio como algo pecaminoso, como algo moralmente mau sendo uma transgressão do 5o. mandamento "não matarás". A Igreja recusava aos suicidas os ritos funerais e enterros. Normas proibindo suicídio tem sido fortes no catolicismo, protestantismo, judaísmo e islamismo. Somente as religiões orientais são mais tolerantes no assunto.

Gradualmente as atitudes da Igreja passaram para o governo e foram incorporadas na lei civil. Como resultado o suicídio passou a ser um crime, uma violação contra as instituições sociais e começou a ser punido severamente. As autoridades confiscavam a propriedade da vítima, os sobreviventes tinham que pagar uma multa para o tesouro nacional e o corpo por vezes era exposto à execração.

Finalmente, no séc. XIX, intelectuais e filósofos questionaram estas atitudes e houve uma mudança. O suicídio passou a ser visto como uma manifestação de loucura, indicando que a pessoa não estava com a mente sadia. Tal abordagem era menos moral e se servia das descobertas no campo médico e social. Atualmente o suicídio não é visto exclusivamente como um problema moral, mas também como um problema de saúde mental. Muitos peritos no assunto acreditam que a maioria dos suicídios são compulsivos e irracionais. Aqueles que tiram a própria vida, estão emocionalmente perturbados e agem compulsivamente ou então a percepção da realidade é tão distorcida pela angústia que a liberdade de escolha praticamente não existe.

 

Algumas perguntas e respostas

 

Quem tira a própria vida está fora de si, sempre?

 

Não necessariamente. Embora muitos pacientes sejam diagnosticados como "loucos" por tirarem a própria vida, pesquisadores acreditam que as vítimas de suicídio não procurariam tanto a morte, e sim um meio de fugir ao sofrimento. Os suicidas, assim, sentir-se-iam perdidos pelas circunstâncias da vida e encontrariam na morte o único meio de fuga. No entanto, mesmo na morte, eles desejariam que alguém os resgatasse da situação. Por isso, assumir que o suicídio é um ato de insanidade não apenas pode ser falso, como constitui uma indelicadeza para com os parentes.

 

Existem sinais de aviso?

 

A resposta é sim e não. As estatísticas mostram que 80% das mortes por suicídio foram precedidas de alguma pista ou sinais. Contudo, muitos deles estão tão codificados ou imperceptíveis que mesmo um conselheiro profissional pode não os perceber. O percentual de probabilidade de intenção de suicídio nunca deve ser esquecido. Embora o ato final de tirar a própria vida possa ser produto de um longo processo, ele nunca será inteiramente previsível por alguém, até que aconteça.

 

Os suicidas sempre deixam uma carta ou bilhete?

 

Não. Em muitas mortes aparentemente por suicídio não existem notas, cartas ou bilhetes, e somente as circunstâncias podem indicar que a morte foi causada pela própria pessoa. Legalmente, o médico deve registrar o óbito como suicídio, homicídio, acidente ou por causa natural. Para muitas pessoas, tais tipos de morte permanecem um mistério insolúvel. Este é um ponto em que amor e lei nunca estão de acordo.

 

Por que algumas pessoas parecem tão "felizes" justamente antes de porem fim a suas vidas?

 

Sentir-se derrotado, incapaz de tomar decisões ou desempenhar bem tarefas consideradas importantes - isso pode levar alguém a procurar no suicídio algo que se pode realizar com sucesso, de uma vez por todas. É por isso que alguém, antes deprimido, em razão de qual quer incapacidade pessoal, pode parecer aliviado e mesmo "feliz" por haver planejado morrer. Isso torna as coisas particularmente difíceis para os familiares, porque eles nunca sabem, efetivamente, o que sente o seu ente querido, se está ou não plenamente seguro de si.

 

Como é possível cuidar de alguém a todo instante?

 

Obviamente, ninguém pode. E os que ficam não devem carregar para sempre, como sua, a culpa irracional de que teria sido possível evitar o suicídio. Embora a curva via que leva à morte por suicídio seja, no geral, longa e, por isso, possa oferecer muitas oportunidades para procurar ajuda, chegará o ponto em que nenhum ser humano poderá brecar quem está firmemente decidido pela autodestruição. Mesmo quando a dificuldade é conhecida, lamentavelmente a ajuda não poderá ser dada sempre, ou recebida a tempo. Muitas mãos podem estar estendidas para ajudar, mas o que os americanos chamam de "tunnel vision" ("luz no fim do túnel"), característico dos suicidas, pode cegar por completo a vítima e impedi-la de ver todo o amor e carinho que existe a seu redor.

 

Questões polêmicas:

Suicídio: deve ser considerado ato de coragem ou covardia?

 

Suicídio: é admissível ser uma escolha racional?

 

Nos EUA e na Inglaterra existem sociedades que defendem o suicídio como uma opção ética, uma alternativa racional na vida, especialmente se a pessoa é vítima de depressão, solidão, doença incurável ou sofrimento agudo. Justifica-se?

 

"A ênfase que hoje se dá a respeito do direito de morrer e morte com dignidade pode nos cegar ao direito de viver do fraco, doente e envelhecido. O custo do combate dos problemas humanos tais como solidão, doença e depressão não é autodestruição, mas antes é o crescimento de uma comunidade que vive a compaixão, carinho e amor". Como avaliar tal assertiva?

Christian de Paul de Barchifontaine et alii: “Bioética e saúde” - São Paulo, CEDAS


 

O suicídio é justificado?

 

Positivamente: não. Ninguém pode destruir o que não pode construir, ninguém pode tirar o que não pode dar.

Por outro lado, se o suicídio fosse remédio eficaz e definitivo para os males humanos, a população do globo estaria reduzida a proporções mínimas. São tão poucos os felizes. Bastaria um minuto de coragem ou um momento de desespero que não faltam ainda mesmo ao mais fraco e mais timorato e tudo estaria acabado.

O suicídio não é, portanto um remédio, e, quando muito, exterioriza o egoísmo dos indivíduos, furtando-se ao sofrimento; mais do que isso representa a ausência de fé, de elevação moral, de superioridade de espírito, significa falta de vontade para reagir contra os golpes da desventura, ou suportá-los com heróica resignação; muitas vezes traduz inveja da alheia sorte, ausência de coragem para afrontar as conseqüências dos males provocados; alucinação da paixão; fraqueza psíquica, sempre. Não é um remédio, o suicídio, nem é um direito, porque ninguém pode violar impunemente as leis naturais, porque ninguém pode dispor do que não lhe pertence, e porque o indivíduo, suprimindo-se a vida, prejudica o esforço que deve à sociedade: comete um roubo. (Encontrado na Internet)


O homem é triplamente habitado pela morte:

1.no CORPO, pois é fisicamente mortal;

2.no ESPÍRITO, pois sabe que vai morrer;

3.na LIBERDADE, pois o homem tem o poder de se matar. (O suicídio é uma negação de si mesmo que rivaliza com a afirmação de si para si).

OS FILÓSOFOS E O SUICÍDIO

PLATÃO: O suicídio se constitui numa injustiça praticada contra si mesmo.

ARISTÓTELES: (Pode alguém ser ao mesmo tempo agente e paciente de uma injustiça?...) É uma injustiça contra a sociedade.

HEDONISMO (EPICURISMO):

EPICURO: O sábio deve ser alegre mesmo nos sofrimentos cruéis.

HEGÉSIAS (seu discípulo): Se a felicidade do homem consiste na soma de seus prazeres, e estes forem inferiores à soma de males que a vida lhe oferece, como não justificar o suicídio?ESTOICISMO:

ZENÃO DE ATENAS: o homem deve viver conforme a Natureza (Lógos). Portanto, deve deixar a Natureza seguir o seu curso. Mas, em certos casos, quando ato de virtude, pode o sábio escolher a hora que o Lógos determinou... (perscrutando os seus desígnios).

SÊNECA: A vida não vale a pena ser comprada a qualquer preço. O essencial não é viver, mas viver bem.

SANTO AGOSTINHO prega a submissão de Jó ante o sofrimento, posição dominante no medievo.

R. DESCARTES: A vida sempre oferece mais bens do que males (já que a VIDA é o suporte básico de todos os bens, sem a qual nenhum bem existe). Todos os bens são incertos, exceto a vida que é o único bem certo. Suicidar-se é fazer mau uso do livre arbítrio.

SPINOZA:O desejo é a essência mesma do homem, isto é, o esforço pelo qual o homem tende a perseverar no seu ser. O princípio da virtude é o esforço para conservar o próprio ser. O suicídio não é um ato de virtude pois que visa a destruição do que foi a essência mesma do homem, seu poder e sua tendência fundamental.

VOLTAIRE: Os suicidas são uns ociosos ou gente que não sabe mais o que fazer...ROUSSEAU: O suicídio é um roubo feito ao gênero humano, pois sempre fica uma boa ação por fazer (que deveria ainda ter sido feita pelo suicida e só por ele...). Todo o homem é útil à humanidade pelo simples fato de existir.

KANT: O suicídio não pode ser erigido em norma universal (em padrão para a espécie humana), é infração à Lei Universal, porque: - destrói o próprio sujeito da moralidade; o suicídio é usado como um fim em si mesmo, arbitrariamente, sendo um atentado à liberdade; é a própria negação do querer-viver da Natureza (o oposto da sintropia da Vida).

DOSTOIEWSKI: O que ousa se matar quer ser Deus... ou, pelo menos, se coloca no lugar de Deus

HEIDEGGER: É tirar o sentido da morte. Destrói a possibilidade da morte humana.STO. TOMÁS DE AQUINO:

-Todo o sr humano se ama naturalmente a si mesmo. O fato de alguém se matar é contrário à inclinação natural do amor a si mesmo, portanto, contrário à Lei Natural.

-Cada indivíduo humano é parte da comunidade e, portanto, tudo o que ele é pertence à sociedade. Logo, quem se suicida atenta contra a comunidade.

-O homem não se deu a si mesmo o próprio ser, não tem o domínio perfeito sobre a vida, não dispõe da sua substância. E portanto, mero possuidor, administrador da própria vida. Ora, conservar a vida é conforme a Reta Razão. Portanto, moralmente BOM, pois que é conforme a Lei Moral Natural.Contrario sensu: destruir a própria vida é contrário à Ordem Moral Natural.

Ainda:

-A auto-realização tem prioridade sobre a auto-destruição. (O suicídio corta radicalmente toda a possibilidade de auto-realização).

-As ações revogáveis tem prioridade sobre as não-revogáveis.

-A  liberdade vivida por mais tempo e com maior intensidade tem proeminência sobre a liberdade prematuramente cortada.

 

MUTILAÇÃO

  

Define-se como a destruição de um membro ou função corporal, destruindo-se a integridade do corpo.

O juízo avaliativo é análogo ao do suicídio, qual seja, não se justifica sem razão suficiente. Segundo o PRINCÍPIO DA TOTALIDADE, as partes são para o TODO e sacrificá-las em benefício deste é conforme a Reta Razão.

Em benefício de outrem, não causando prejuízo grave à saúde, pode-se constituir num ato de bondade. Assim a doação de sangue, pele, medula óssea, rim, parte do fígado.

Todo homem tem obrigação (dever moral de Justiça) de usar os meios ordinários para conservar sua vida e saúde e aperfeiçoar sua existência.


 

SUICÍDIO NA ADOLESCÊNCIA

 

 

Enio A. M. Resmini - Psiquiatra de Porto Alegre, Especialista em Psiquiatria de Adolescentes e Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria

 

A adolescência é uma etapa de conflitos e contradições para a maioria das pessoas. O jovem entra no mundo adulto através de profundas alterações no seu corpo, deixa para trás a infância e é lançado num mundo desconhecido de novas relações com os pais, com o grupo de iguais e forte angústia, confusão e sentir que ninguém o entende, que está só e que é incapaz de decidir corretamente seu futuro. Isto ocorre, principalmente, se este jovem estiver inserido em um grupo familiar que também está em crise por separação dos pais, violência doméstica, alcoolismo de um dos pais, doença física ou morte. Estando completamente sem apoio no meio familiar, pode buscar desesperadamente o apoio de um grupo de iguais, o qual, pode ser constituído de jovens problemáticos ou francamente delinqüentes. Sem o suporte da família e entre amigos que são fonte insuficiente de apoio, encontramos o ambiente favorável para o desenvolvimento da depressão do adolescente.

O adolescente possui tendência natural para comunicar-se através da ação, em detrimento da palavra. Por isso, na busca de uma solução para seus conflitos, os jovens podem recorrer às drogas, ao álcool ou à sexualidade precoce ou promíscua na tentativa de aliviar a dor ou reencontrar a harmonia infantil perdida. Enraivecidos podem orientar-se para comportamentos agressivos e destrutivos contra a sociedade. É comum observarmos um jovem manifestar sua depressão através de uma série de atos anti-sociais.

A depressão franca também é muito comum nos adolescentes. O jovem deprimido confia pouco em si mesmo, tem auto-estima baixa, experimenta alterações no apetite e no sono, se auto-acusa e tem lentidão dos pensamentos. Vê a si mesmo como sem valor e, por isso, atribui suas experiências desprazeirosas a alguma falha pessoal. Tem uma visão negativa do futuro e sente que suas dores e frustrações não serão aliviadas. Estes sentimentos levam a prejuízo na saúde, dos estudos e dos relacionamentos interpessoais.

Durante um episódio depressivo o jovem costuma sentir-se inquieto ou irritado, isolar-se de amigos ou familiares, ter dificuldade de se concentrar nas tarefas, perder o interesse ou o prazer em atividades que antes gostava de realizar, sentir-se desesperançado e ter sentimentos de culpa e perda do prazer em viver. Pode também ter alterações do sono, por exemplo, ir dormir mais tarde do que costumava fazer, acordar cedo demais, ter sonolência durante o dia; e do apetite, que o leva a ganhar ou perder peso.

O jovem deprimido pode se sentir impotente para sair desta espiral descendente e, realmente, necessita de auxílio para melhorar. Este auxílio poderá vir de qualquer adulto confiável, mas a pessoa mais qualificada para ajudar nestes casos é profissional da área de saúde mental com habilidade em psicoterapia. Romper o isolamento depressivo é o primeiro passo para a mudança. Falar abertamente de seus sentimentos com um psiquiatra costuma ser de inestimável valor.

Um estudo realizado com adolescentes internados na Unidade de Psiquiatria do Hospital da PUCRS, em 1992, demonstrou que os adolescentes envolvidos com amigos problemáticos, abusavam de álcool ou drogas, tinham sintomas depressivos e comportamentos anti-sociais, e eram muito sensíveis a perdas, críticas e separações. Estes adolescentes sentiam-se sós e tinham história de tentativas de suicídio prévias ou de acidentes. A tentativa de suicídio também esteve presente como um dos principais motivos que conduziu à internação do adolescente. Quase um terço dos adolescentes internados apresentou história de tentativa de suicídio no período que antecedeu a baixa.

Muitas vezes, o jovem pode tentar suicídio de uma maneira inconsciente, envolvendo-se em acidentes automobilísticos nos quais começam com formas mais brandas, por exemplo, através da ingestão de pequenas quantidades de comprimidos e evoluem em gravidade e em potencial de causar a morte (uso de armas de fogo), principalmente, se não ocorrerem mudanças no jovem (melhora a sua depressão através de antidepressivos) ou mudanças no seu meio sócio-familiar (uma atitude mais participativa e responsável dos familiares).

Tendo-se em conta estas possibilidades, elaboramos uma definição de tentativa de suicídio: "um ato, com variado grau de consciência, do indivíduo em relação a si próprio, com possibilidade de provocar dano físico que, em determinadas circunstâncias, pode ser letal, de modo que, é potencialmente perigosa a sua execução, quer pela intencionalidade autodestrutiva subjacente ou pelo desconhecimento do indivíduo sobre os riscos a que se expõe, e cuja motivação situa-se no espectro que vai desde o desejo de acabar com a própria existência, até o desejo de, com o ato, modificar o ambiente sócio-familiar".

É importante estar-se atento as manifestações do jovem que está considerando o suicídio. Ele pode insinuar que é um fardo para os demais e que em breve deixará prejudicar os outros. Pode referir que a vida não tem sentido de ser vivida e que a sua morte seria um alívio para todos. Devemos ter atenção especial com os adolescentes que repentinamente melhoram de um episódio depressivo, aparentam alegria e começam a arrumar o quarto, jogar coisas fora e a se desfazer dos seus objetos preferidos. A alegria inesperada pode representar que "encontraram a solução", decidindo se matar durante o episódio depressivo.

Os adolescentes que tentam suicídio sentem-se sós e desesperados. Desespero é o sentimento de urgência de que ocorram mudanças na vida somado à desesperança de que essas mudanças possam realmente ocorrer e à crença de que a vida é impossível se não acontecerem tais mudanças. Os principais acontecimentos vitais que costumam desencadear uma tentativa de suicídio são as perdas ou rompimentos em relacionamentos afetivos, os desentendimentos familiares e as experiências de humilhação que diminuem a auto-estima, como, por exemplo, um fracasso escolar.

Publicações do Drug Abuse and Mental Health Administration, de 1990, mostram que treze por cento das pessoas que cometem suicídio o fazem em conseqüência do abuso de álcool e drogas. O álcool e as drogas prejudicam o controle dos impulsos, inclusive das tendências autodestrutivas. Tanto o abuso de álcool e drogas, quanto a depressão e o suicídio no adolescente são problemas importantes de saúde pública. Os jovens morrem principalmente de causas violentas e o suicídio é a terceira causa de morte em adolescentes. Para cada suicídio de um adolescente, existem 10 tentativas. As moças tentam 3 vezes mais o suicídio que os rapazes, mas os rapazes alcançam a morte mais freqüentemente que as moças e utilizam métodos mais violentos.

Um jovem que ameaça ou tenta suicídio está revelando um completo colapso dos mecanismos adaptativos e precisa urgentemente de auxílio especializado. Como a depressão pode ter causas tanto biológicas e hereditárias quanto psicossociais, o tratamento pode incluir combinações de medicação antidepressiva com psicoterapia e manejo familiar.

É fundamental no atendimento do adolescente suicida:

• Levar a sério o paciente; • Avaliar os riscos e as pessoas capazes de auxiliar na proteção do jovem; • Manter uma atitude não crítica e não julgadora; • Desenvolver uma escuta atenta e pacienciosa sobre os motivos que levam o adolescente a cogitar o suicídio; • Ressaltar a esperança na possibilidade de melhora pela psicoterapia ou pela medicação antidepressiva.

Somente a conscientização de todos sobre este grave problema poderá contribuir para que diminua sua ocorrência na população de adolescentes. A Internet pode auxiliar na divulgação de informações sobre o tema, esclarecendo familiares e profissionais que lidam com adolescentes. Os depoimentos pessoais também são importantes ao fazer com que o jovem perceba que sua experiência não é exclusiva e outros compartilham sentimentos semelhantes.

Para aqueles que estão enfrentando um problema relacionado com o suicídio, na página Psych Central do Dr. John Grohol na Internet (http://www.coil.com/~grohol/), clicando em Suicide Helpline terá acesso à página The Samaritans com informações importantes, nesta página, clicando em Befrienders International poderá obter os endereços e telefones helpline dos serviços de auxílio em todo o mundo.

 

REFERÊNCIAS:

 

RESMINI, E. - A Tentativa de Suicídio na Adolescência. In: Granã, R - Técnicas Psicoterápicas na Adolescência. Porto Alegre, Artes Médicas, 1984.

Teens Suicide - Página da American Psychiatric Association na Internet.

RYAN, N. D & Cols. (1987) - The Clinical Picture of major depression in children and adolescents. Archives of General. Psychiatry, 44: 854-861.